Sábado, 29 de Novembro de 2014

...

Escreveu:

 

Estimado Miguel Capelo Sousa Viveiros,

Quero começar por prometer que a frase que escrevi antes desta será a última mentira que lhe dirijo. Porque de “estimado” você nada tem. Absolutamente nada. Mandaria a prudência que, na hora em que apresento a minha demissão, me mostrasse agradecido pelo emprego que me proporcionou nestes seis anos que levo na sua empresa. Deveria, talvez, louvar o seu espírito de liderança, a justeza das suas decisões, a amabilidade no trato.

Mas estaria, mais uma vez, a mentir.

Na verdade, quero que saiba que você foi o pior patrão que alguma vez conheci nestes 25 anos que levo de profissão. O mais arrogante, o mais ignorante, o mais lesto a apropriar-se das ideias alheias para as fazer brilhar como suas. Não sei se tem noção do quanto as pessoas destes escritório o odeiam. Não, Dr. Miguel, ninguém acha que você tem graça, ninguém acha que você faz uma boa imitação do professor Cavaco Silva, ninguém pensa que os seus reles comentários sobre as mulheres que entram no escritório têm graça (já pensou que o facto de existirem três casais nesta casa pode tornar as pessoas mais sensíveis?), nem tão pouco o empregado do restaurante onde você almoça todos os dias acha alguma piada às suas graçolas sobre o estado do tempo ou o tempo verbal em que faz o pedido.

O que o senhor precisa definitivamente de compreender é que você é uma pessoa de merda. Ou uma merda de pessoa, como queira. Talvez a sua extrema vaidade seja a razão que o impede de ver o quão cruel e arrogante consegue ser para os que o rodeiam. Será tão difícil compreender que as pessoas detestam que lhes peça para ir à lavandaria ‘num instantinho’ ou que lhes vá buscar uma encomenda pessoal ao correio ‘num pulinho’; que o contabilista tenha de tratar do seu IRS e das declarações de mais cinco membros da sua família ou que as suas secretárias fiquem todas as semanas hora e meia para lá do horário de serviço porque precisa do ‘favorzinho’ de uma boleia para levar sua mulher a casa?

Já agora, quero que saiba que não, a sua "jovial e encantadora" esposa não é a mais bonita que já vimos. Nem sequer é a mais bonita que já vimos hoje. É até uma mulher bem desagradável, talvez seja o hálito a leite azedo que a prejudica. Ou será das mamas desproporcionadas que você lhe ofereceu no Natal passado?

Por isto tudo e mais alguma coisa, despeço-me sem um adeus. Espero sinceramente que só nos voltemos a encontrar em tribunal (o seu advogado explicar-lhe-á) . Diria passe bem, mas seria mais uma mentira.

Quero que você se foda.

 

Gravou o texto. Quando o computador lhe perguntou o nome do ficheiro não precisou de muito tempo para pensar: carta de despedimento v45.
São nove e meia. É melhor começar a abrir o correio que o cabrão deve estar a chegar.

 

DoVale

despesadiaria às 10:25
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