Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2014

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O ritmo, reduzido a uma simples carícia à casca d'água, expõe dos remos alternadamente o lado emborrachado e a banda amadeirada de sua palheta. De tempos em tempos dois rolos espessos de nuvens se abrem; entre eles, através de uma velutina morna e esticada, as aves, num frenesi nutricional, coalham o rio em cima de uma manta de carne azulada da qual se alimentam. As asas, dobradas para o mesmo lado, cobrem à maneira de telhas o corpo escavado onde a pele estendida e o esforço daquele que a puxa criam uma trepidação que garante, ou melhor, esgota o valor dessa mesma trepidação. São as mesmas aves que estão a revirar nas ourelas, parecem frutas vivas a balançar os galhos. A partir delas, as dimensões não são meios de situar os objectos mas ao contrário os objectos que estão ali para situar as dimensões, para fazê-las saltar como uma contrarevelação onde a correnteza, desafogada e rápida, é varada por lajedos verticais. Escavadas num tronco de árvore ou feitas de tábuas costuradas à gavinha, as nossas montarias fazem água de todos os lados e acabarão por afundar. Continuamente esvaziamos o fundo com a cabaça, enquanto, ao longe, insinua-se a curva gradual de um abismo abaulado, um madrigal flutuante de arbustos, rígidos e salientes, que quase não estão pegados ao chão. Depois de rompermos um mofo grosso de folhas onde as cores haviam-se congestionado (o lilás tornara-se arroxeado, o pulso inchava-se, do rosa ao vermelho, e de um amarelo a puxar para o alaranjado), aos poucos, a vegetação dá passagem ao rio, coando-o, entre duas faixas de argila planas e esponjosas. Na margem, perto do pontão, uma estaca sai da água e o chão cresce directo da propulsão achocolatada da espuma. A terra e o rio foram içados, meio de barriga, meio de lado, por mil ventosas superaquecidas, e estão agora obrigados a abolir as distinções habituais entre si. Embriões de faúlhas articulam-se sobre losangos folhudos e placas de dentes silhares encravados até meio da parede, extraídas, não se sabe de onde, numa espécie de fosforescência mal distribuída. Enxurros de encarnações passadas. Aqueles alagados de vinte séculos de vício. Espécie de simum submetido a uma rede interna de entulhos e sangradoiros que há pouco lombrigava, a romper torcicolos de rios, e que agora é um naco de céu que cai e vem atingir o espelho d'água de que é prisioneiro. À frente, parte de um arco-íris o atravessava, dobrado, chapinhando pelos campos de ananás. Rente às tábuas, espiada através de breves parênteses abertos nas juntas vacilantes da canoa, a vida é menos do que uma tênue ondulação no rio, sobe num halo moribundo de plumas e escamas, circuitando-nos os flancos no meio dos quais evoluem insectos que quando se elevam é toda a piroga que parece se elevar acima da água.

 

Peor

despesadiaria às 02:41
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