Quinta-feira, 8 de Maio de 2014

 

Não soube dizer se o que me acordava vinha da porta, sonho, ou telefone, mas confundiu-me sobretudo ser ainda de noite. Tentando estabilizar o raciocínio por entre a repetição do som, estiquei o braço e percebi ao tocar na mesa de centro (e não de cabeceira) que estava no sofá da sala, o que nos últimos meses não era mais estranho do que estar na cama; estar calçado e de casaco era-o um pouco mais. A boca seca e a garganta arranhada de fumo, faziam prever uma ressaca, cuja sintomática dor de cabeça procurei avaliar com cuidado, focando objectos a medo em várias direcções. Nada latejou, nenhuma ressaca, pelo que só me restava concluir estar ainda bêbado.

 

O toque continuou, recorrente como um alarme, e não consegui pensar noutra forma de saber se era dia da semana (ou, no que na verdade estava a tentar perceber, de alarme), senão consultar o telemóvel, que imediatamente me pareceu zunir no bolso direito, mas não senti lá dentro mais do que umas moedas e a vibração a revelar-se imaginária. Cheguei a ter tempo para pensar (como de todas as vezes em que acontecia) que interessantes são estes fenómenos dependentes da disseminação de uma tecnologia, mas também se um tumor na perna poderia provocar uma vibração muscular espontânea, só que a persistência do toque não me deixou aprofundar estes temas durante uns cinco minutos como teria acontecido em situação mais tranquila. Do bolso esquerdo e correcto tirei o telefone, que me informou após pressão simultânea de uns cinco botões pelo polegar gordo, que não era ele o responsável pelo chinfrim e que eram 3:40 da manhã. Foi menos de um segundo depois de perceber ser a campainha da rua que insistia, que o toque deu lugar a uma única pancada, na madeira da porta, seguida do que não poderia ser senão um suspiro cansado.

 

Anos de cortes de água, luz e gás, de cartas registadas mal intencionadas de serviços fiscalizadores diversos, de visitas de oficiais da justiça ou outras de carácter menos ofensivo como vendedores de pacotes de comunicações ou (estes cada vez menos frequentes) da palavra de Deus, tinham-me levado à convicção de que nunca os ganhos de uma visita cortês poderiam superar os custos de uma de um destes meus inimigos. Não abro uma porta há anos, o que fez desaparecer gradualmente os amigos, e conferiu à campainha um carácter de prelúdio de más notícias. Era por isso intrigante ouvi-la àquela hora, quase quatro da manhã, e foi quando me sentei no sofá, sem tirar os olhos da porta - agora silenciosa - que uma vaga memória muito recente pareceu querer servir de rastilho para perceber que não tinham passado mais de vinte minutos desde que eu tinha entrado em casa, que não tinha vindo sozinho do bar, que lhe tinha pedido para esperar um minuto enquanto eu entrava e (isto não disse) tirava alguma roupa do chão, como se a esta hora, com ela à porta, esta variável fosse relevante para o que pretendíamos. Novo suspiro do outro lado, agora conformado, e o som familiar de passos a descer as escadas, amplificados pelas condições da hora, passos que estava tão habituado a associar à vitória sobre mais um credor. Não saber o nome dela fez-me hesitar por um momento, mas estava ainda suficientemente bêbado para correr à porta e abri-la com treinada leveza, debruçar-me sobre o corrimão e dizer, da forma mais alta que uma surdina permitisse, "espera, espera!"

 

Gouveia

despesadiaria às 09:00
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