Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2014

 

Natureza morta

 

O homem assobia rua acima com uma passada descontraída e bem-disposta.

A cada reentrância na magnífica e viçosa sebe que o acompanha desde o início da rua, baixa-se e estende a mão. O gesto é feito com tanta dignidade e cerimónia que quem o observasse poderia pensar que cumprimentava, com uma quase vénia seguida de aperto de mão, um velho e admirado conhecido.

O homem abre a cancela e entra.

“Correio!”, ouve-se então por entre a cacofonia dos pássaros.

Está uma manhã límpida, com uma luminosidade franca e directa.

A rua é muito bonita, todo o bairro é, aliás. Atingiu aquele ponto em que já não é fácil distinguir o que tem interferência humana do que é natural e nativo. As casa parecem estar ali há pelo menos tanto tempo quanto as grandes árvores que ornamentam a rua e os jardins das habitações. A fronteira entre estes e a rua é cada vez mais ténue.

Do lado de dentro dos pequenos jardins, flores coloridas insinuam-se por todo o lado, lançando-se com o seu o perfume por cima dos muros. E nesta altura do ano, o jacarandá florido do Sr. H. dá uma pincelada exuberante de cor na linha de árvores que marca o horizonte.

 É um quadro idílico, e quando nos encontramos diante dele torna-se difícil pensar em tudo o que há de errado com o resto do mundo. É mais fácil imaginar que estamos no meio de uma floresta mágica habitada por pequenos gnomos que vivem em completa paz e harmonia.

“Correio! Sra. H?! Tenho uma encomenda para si!”, ouve-se, enquanto o homem se encaminha para as traseiras da casa.

O curto caminho de saibro rasga um relvado quase perfeito, pontuado por pequenos ajuntamentos de margaridas. Junto à entrada da cozinha, canteiros transbordantes de crisântemos, gladíolos e tulipas ladeiam o alpendre.  

“Sr. H?! Sra. H!? Está alguém em casa?”. O homem sobe ao alpendre e espreita pela pequena janela da porta da cozinha.

Lá dentro, a mesa está posta e guarnecida para um pequeno-almoço abundante. Há ovos mexidos, salsichas, fiambre, pão - torrado e simples, croissants, uma variedade de doces e compotas, manteiga, leite e sumo de laranja. No rádio, ouve-se a previsão do tempo, seguida de música. Um tão belo como redundante vaso de flores no centro da mesa compõe finalmente a cena.

De repente, o silvo de um fervedor ao lume. O homem repete o chamado pela ultima vez, num tom mais tranquilo, mas também mais desanimado: “Bom dia! Está alguém em casa?”.

O homem retira o telemóvel do bolso e liga para a polícia, cujo número já estava memorizado.

“Estou sim? Podia passar-me ao Inspector P? Eu espero. Bom dia, inspector. Tenho más notícias. Aconteceu outra vez. Sim. Igualzinho. A família H. Sim. Sim. Ninguém, como de costume. Não. Ninguém. Não sei, diga-me o senhor. Esta semana já é a terceira vez.”

 

rwtg

despesadiaria às 23:24
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