Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2014

 

Tabelas

 

Na cozinha, o fervedor gorgolejava entre o vapor escaldante. Já quase não havia água lá dentro: tinha passado a nuvem, e daí multiplicara-se em gotinhas cansadas deslizando pelos azulejos. A luz vermelha na base do pequeno eletrodoméstico desistira de piscar, a cor tornara-se permanente, aflita. Tropecei uma caixa de cartão para chegar à bancada da cozinha. A última bolha empolada estalou um agradecimento quando desliguei o aparelho. Do vulto sentado à mesa ouvi outro agradecimento, saído de uma gruta formada pelo corpo debruçado.

— Ias fazer chá?

A cabeça da Madalena não se levantou.

— Cafééé — respondeu o pompom do gorro que usava em casa, um gorro vermelho, feito com lã grossa. Inclinei-me ligeiramente para trás, tentando ver de onde vinha a sílaba arrastada, mas as orelhas do gorro tapavam-lhe a cara; as pregas de malha quase roçavam na madeira e terminavam em duas tranças de linha que se enrolavam ao lado de uma folha como duas cobras reguilas.

— Estás de ressaca? — perguntei, enquanto tirava do armário duas canecas e distribuía entre elas a pouca água que não fugira do fervedor.

— Ooooooh, nããão!

Mergulhei um saquinho de chá verde na minha caneca e despejei uma colher de café instantâneo na que pousei junto ao intenso labor da minha companheira de casa. O baque da loiça sobre a mesa fê-la endireitar-se na cadeira. Agarrou a caneca com as duas mãos:

— Está friiiiiio! — disse, a vogal tão aguda que a imaginei capaz de rachar icebergues. Olhou desiludida para a caneca meio vazia e depois para mim, que procurava encontrar espaço para apoiar os meus cotovelos na mesa cheia de lápis de cor e marcadores, — ontem tive um blind date — disse, e juntou os lábios para sorver sonora e cuidadosamente o café.

— Um blind date?

— Um blind date — repetiu. Estendeu-me a folha na qual estava a trabalhar.

Eu não sabia o que é que a Madalena fazia quando estava fechada no quarto a ouvir as suas gajas modernas chorando de amor. Interessava-me que pagasse a renda, coisa que oito horas diárias a digitar números lhe permitiam fazer com louvável escrúpulo e pontualidade. Também me interessava que ajudasse na manutenção da casa. Por sua sugestão, uma tabela de duas colunas e muitas linhas enfeitava parte do quadro de cortiça junto ao frigorífico; nela estavam discriminadas as tarefas domésticas e, no final de cada semana, as duas colunas colecionavam aproximadamente o mesmo número de pinos coloridos, colocados em função do que cada uma tinha feito. A princípio, pensei que fosse uma questão de justiça doméstica. Sentia-me ridícula em cada viagem que fazia até ao quadro; se trocássemos os pinos por estrelinhas, tornar-nos-íamos volúveis no tempo como Billy Pilgrim, saltitando entre aquele Outono da nossa juventude e a escola primária da nossa infância. Quando, ao fim de algumas semanas, reparei que as tarefas se dividiam sempre da mesma forma, questionei a utilidade da tabela. As tranças do gorro deitaram as suas línguas de fora (tsssssss): — Eu confio na tabela.

No sítio de sempre, a tabela das tarefas domésticas olhava para as duas pessoas sentadas à mesa. Ria-se da que se engasgava com o chá — gostava tanto de mim como eu dela.

O que eu tinha à frente também era uma tabela, construída com régua e esquadro.

— O que é isto?

— O meu date! — Os lábios desapareceram quando esticou a cara num sorriso estúpido. — Eu seeeeeeeei — virou os olhos para o teto —, ainda há campos por preencher.

A Madalena levantou-se. Entre as ancas e os joelhos, unidos num jeito puro e despropositado, o seu corpo desenhava um coração fendido. Procurei o vidro do fogão através da racha daquele coração. Só consegui ver o reflexo do meu nariz: estava franzido, como o de um porquinho.

— Vou mostrar-te uma coisa —, disse; levantei os olhos e juntei-os aos dela, que pareciam meias luas. O gesto era uma interrogação, um pedido, uma autorização.

O coração desfez-se em duas pernas finas, mas fortes. Mesmo descalça, os passos da Madalena soavam como os de um bailarino de flamenco. Ergui a minha caneca para acabar com o chá. O meu focinho rosado mergulhou na escuridão da caneca; reapareceu em dois goles, frente à pasta de arquivo que a Madalena atirava para cima da mesa. Virei-a para ficar com a lombada à minha esquerda. Muitos dos lápis e marcadores ali espalhados rolaram e atiraram-se para o chão em protesto. Abri a pasta e soltei as dezenas de homens no vapor que enchia a cozinha.

A Madalena voltou a sentar-se à minha frente. Cravou os cotovelos na madeira e apoiou o queixo fino nas mãos.

— Eu confio na tabela.

 

S. White

despesadiaria às 11:54
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