Sábado, 6 de Dezembro de 2014

 

Dizia assim um bordado emoldurado na parede:

 

UMA CASA SEM LIVROS É COMO UM CORPO SEM ALMA
Cícero

 

Quem se deparasse com este pequeno mau gosto não demoraria a perceber que não havia um único livro nesta casa, uma ironiazinha reconfortante. É provável que também notasse, embora mais tarde, que a alma de Jaime lhe era realmente externa. Nas estantes, apenas pastas de arquivo, centenas de dossiers pretos iguais, com o registo total das ocorrências documentais da sua existência. Se um momento gerou um papel, Jaime catalogou-o e arquivou-o, um processo que começou ainda não tinha doze anos. Talões de restaurante, enunciados de exames, catálogos, correio recebido e enviado, flyers e publicidade, contratos selados, recibos de vencimento, ou umas palavras cruzadas, que podiam ou não estar terminadas.

Surgirá naturalmente a tentação de partir desta informação e inferir algumas outras que parecerão fáceis de adivinhar, e que provavelmente não estarão erradas, desde que uma delas não seja a presença de uma patologia no comportamento de Jaime. Aliás, quase se poderia dizer "muito pelo contrário".

O que se passa com Jaime, a sua tragédia, é que todos os seus fantasmas se materializam. São abundantes, como os nossos (como os de alguns de nós, pelo menos), mas manifestam-se de forma mais literal. Vêem-se. A maior parte deles fala, alguns com sentido, outros sem, uns observam apenas, outros ladram ou produzem ruídos metálicos, sons industriais como máquinas a vapor. Que factos originam estes fantasmas? Todos, do mais irrelevante ao mais traumático. Uma conta da luz por pagar, fantasma. Uma aula a que faltou no décimo ano, fantasma. Um amigo conta-lhe que engana a mulher, fantasma. Garrafas de vidro junto com o lixo orgânico, fantasma. E naturalmente tem ainda os seus fantasmas mortais, os que derivam de escolhas de vida erradas, de oportunidades perdidas, de fraquezas maiores, ou das consequências do amor.

Materializam-se de formas diversas. Alguns são espectrais, de aparência demoníaca, esqueletos em mantos como a Morte, homens que carregam as entranhas nos braços, e até o clássico lençol branco com buracos para os olhos, mas há muitos outros. Por exemplo, há um que assume a forma da Mila Kunis nua. Aparece quando Jaime está na cama com alguém e fica a olhar divertido sentado numa cadeira de verga, também ela uma cadeira fantasma (felizmente apenas um outro aparece nu, mas desgraçadamente na forma do Kissinger). Uma mão cheia deles são pessoas reconhecíveis, figuras públicas ou personagens de ficção, mas a maior parte são-lhe desconhecidos, humanóides, e vestidos de forma normal.

Não há uma omnipresença, ou, dito de outro modo, os fantasmas não estão sempre lá em simultâneo. Os que aparecem ao domingo de manhã são diferentes dos de domingo à noite, o que nunca houve foi um momento sem fantasmas até onde vai a memória de Jaime. Também não são todos desagradáveis. Com alguns até se consegue conversar, são sensíveis e inteligentes e Jaime recebe-os com agrado. A questão desesperante é que cada incidência tem potencial para criar fantasmas, donde a extrema organização documental. Só que inevitavelmente, e mesmo estando tudo muito melhor agora, há fantasmas que não consegue prever. Chegou a criar o fantasma de um fantasma, no dia em que, após ter combinado um cafezinho na baixa com um dos simpáticos, o deixou pendurado uma tarde inteira.

É nas decisões cruciais, naquelas de carácter especial ou aparentemente irreversível, que vive o grande terror de Jaime. Quando chegou à idade de escolher uma profissão tirou um ano sabático, e logo veio o fatídico fantasma da indecisão, um gordo careca, de rabo de cavalo, que hoje aparece muito menos mas que ainda vai e vem. É certo que para evitar novas assombrações foi sempre um aluno de excelência, estando portanto à vontade para escolher o curso que entendesse, mas cedo conluiu que não havia saídas seguras. A mãe sonhava-o em medicina, o que seria como abrir as portas do inferno em par, o pai sugeriu-lhe história da arte, mas bastou a Jaime considerar este futuro para levar com os fantasmas da fome e da miséria. Decidiu não ir para a faculdade, estudou em casa o que havia a saber sobre gastronomia e conseguiu emprego num restaurante vegetariano (a imagem de exércitos de fantasmas de novilhos e leitões ocorreu-lhe em cima da hora, já com alguns currículos enviados). Tirando um ou outro fantasma de gastroenterites, que nem tem a certeza de lhe pertencerem, tem uma vida profissional sem sobressaltos.

 

Gouveia

 

despesadiaria às 09:00
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