Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2014

 

Querida Luísa,

 

Não cheguei a dizer-te e agora já é tarde para sentires a tragédia, que foi dar em comédia graças ao tempo que passa e leva, mas no dia que sucedeu àquele em que perdi o guarda-chuva, choveu a potes, mas ao céu só lhe deu para rachar minutos depois de eu ter saído de casa, eu que inicialmente decidira ir a pé mas fora convencida pelo João a deixar-me de extravagâncias: ameaçava chover e era longe e eu sou deusa – e as deusas andam de autocarro. Condição pouco divina era aquela em que me encontrava: sem passe e sem dinheiro, prometi-lhe que iria ao multibanco carregar o maldito com os 10€ que me restavam na conta, mas enquanto já pingava sobre o meu cabelo solto, fui informada de que o carregamento mínimo era de 15€ e, então, com aquela desmoralização muito própria dos vivos, fui a pé para o trabalho, à chuva, ao frio (a falta que me fez um lenço ao pescoço) e a sentir-me a mais miserável, no meu melhor número Charlie Brown. Quando cheguei ao silêncio de nenhum olhar em volta, soltei o drama todo que acumulara pelo caminho e chorei, chorei, chorei, até ser patético o suficiente para eu parar de pactuar com a minha veia artística. E foi assim que, já muito calma, me plantei ao balcão do estabelecimento comercial de que sou funcionária para vender o dom da palavra aos vencedores desta vida. Em retrospectiva, não era nada de muito grave, mas sabes quando pequeninas derrotas se sucedem até formarem um drama? Uma coreografia tão implacável de marteladas na cabeça que foi fácil ver-me desaparecer pelo chão.

 

P.S. Eu sabia que alguém me ia levar o guarda-chuva; um guarda-chuva com gatinhos... Mas não é verdade que nesse dia eu fui triste para casa. 

P.P.S. Gosto de ti. Telefona-me.

 

Menina Limão

despesadiaria às 22:02
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