Sexta-feira, 9 de Maio de 2014

 

São 02:32AM. Engoli um Valium e bebi dois canecos (dos grandes) de vinho. Daqui a pouco fecho as pálpebras para fabricar uma noite. Estou no Windsor há, mais ou menos, duas semanas. Dormi, comi, reli todo o Moby-Dick. O meu cabelo (apesar de curto) está tão cheio de remoinhos que não tenho muito como penteá-lo. O Windsor é limpo, mas o quarto muito mal aquecido. Pela manhã, a camareira traz à cintura, sem nenhuma vaidade de puta, um molho chocalhante de chaves. Fala comigo de um modo oleosamente paciente, como se estivesse a dar instruções detalhadas a um anormal. Por ali, ela diz, para o fundo. Basta levantar o pino. Junto com as correntes. Pergunta-me de novo: O senhor não é judeu, é? Não! Tenho o reflexo da autodefesa. Não! Berro mais uma vez. Ontem, sonhei que a rapariga erguia a saia e se esvaziava completamente ali no corredor. Posso ver pelos seus braços que limpar todos esses quartos custa-lhe um certo número de escoriações. Mas, afora isto (o nariz é um pequeno e bonito apêndice germânico e as sobrancelhas, de amarela e fraca pilosidade, vão desaparecendo à medida que se aproximam das têmporas), a cara é uma roda branca e vazia de traços. Enquanto espero o elevador, ela aperta o bico do interruptor e todos os abajures agarrados à parede do corredor acendem ao mesmo tempo. Não é preciso recorrer a um vernáculo cabeludo para descrever o que vejo. Ela vai e vem com uma austeridade atraente. Acho que só usa um pouco de essência de baunilha atrás das orelhas. Dentro do elevador, sozinho, ouço outra vez. Nos últimos 3 dias a minha cabeça tem sido constantemente invadida por uma voz neutra, afastada, anónima. Em geral é uma frase solta, nem mesmo dirigida a mim, e tão trivial que nem me atrevo a dar exemplos. Mas a voz, hoje de manhã, pela primeira vez se pareceu muito com a do meu pai. O meu pai era um daqueles gajos que tinha todos os motivos do mundo para se matar. Ou para ser morto por alguém. Bom. Não faz diferença. Passo pela porta giratória. No fim da rua existe um barzinho chamado Kali Café. É a contrapartida visual às minhas alucinações auditivas. A rua é estreita, espremida entre duas calçadas. Olho para cima. A fachada do Windsor esbanja falta de encanto. É como um puzzle, mas sem metade das peças. Na esquina, com a mão poisada na anca, Marta, uma puta de 24 anos cujas habilidades eróticas são incompatíveis com as suas exigências financeiras. No fundo, tem o aspecto daquelas plantas que estão a morrer ao mesmo tempo de sede e por excesso d'água.

 

Peor

despesadiaria às 03:49
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