Sábado, 13 de Dezembro de 2014

 

VIII

 

Os cumes da cidade revelavam, agora, não aquela magnitude de quem os observa de um ponto mais baixo, mas uma planície plácida de betão, com um ou outro olho de vidro a reflectir o horizonte. Uma risca rósea atravessava o céu, dissipava-se aos poucos num lento estilhaçar da horizontalidade. O isqueiro faiscava uma e outra vez, a ameaça de lume sempre a desvanecer. O cigarro pousado nos lábios ia absorvendo a neblina que começava a cair e uma nuvem de fumo aspirava à memória, a última seiva de nicotina para sossegar a chusma interior. Acima de tudo, era importante registar as mudanças atmosféricas, os sopros de ventos, a vertigem das chuvas, regular os acontecimentos externos, calendarizar ocorrências. Uma tempestade começava a formar-se; por dentro, os presságios do corpo em alerta. Tudo parecia regressar à ordem iniciática: muito ao longe, as serranias ressoavam o seu grito perpétuo, uma sombra vinha, completa, imensa, cobria-as da noite com a noite. Testemunhava e recuava, um passo atrás para interiorizar melhor os efeitos da subida, a sua presença e atenta auscultação impulsionavam a trepidação daquele mundo em ebulição. O homem-caos em partículas arremessado no ar, um torvelinho de vento a embalar a doce emancipação. Caído, um caderno com anotações, setas ascendentes, cruzes, uma nódoa de números e linhas, a lista imperceptível de eventos celestes. Quando voltou a descer, o seu lugar havia sido ocupado por uma ave tricolor, nos afazeres da manhã preparava o voo, iria trazer-lhe a refeição mais gulosa; era, agora, parte do bando.

 

gisandra

despesadiaria às 16:19
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