Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2014

 

Darya decidiu ir morar para um filme sueco ao pequeno-almoço. Espremia o sumo de uma toranja ao ritmo do moinho de café, cujo zumbido subia meio tom a intervalos regulares, como num blockbuster dos anos setenta acelerado a 78 RPM. Ainda era de noite. Parou ambas as tarefas antes de as terminar, e decidiu que a sua vida precisava de planos fixos e close-ups, precisava de relógios na parede. Fez mentalmente o enquadramento por cima do aparador vermelho onde estava um círculo mais branco do que o resto. Perpendicular ao fogão, deixou cair três fatias de bacon na frigideira de ferro fundido, e isolou o crepitar da gordura da restante banda sonora. Lutou pela supremacia deste, forçando ao silêncio o Frigorífico por breves instantes, ainda assim um feito extraordinário àquelas horas. Quando O libertou, o assobio da chaleira anunciou a fervura em simultâneo com o arranque do motor, e a gota suspensa da torneira caiu finalmente no inox. Desligou os dois bicos e olhou sobressaltada para a porta da cozinha. Christophe, de chinelos velhos de cabedal castanho quebrado por rugas e pijama azul de finas listas verticais. Christophe, com um Lucky Strike de maço mole amachucado no bolso do peito. Christophe, meio fora de plano, a tapar a cara com A Condição Humana de Malraux. Francês de merda, pensou Darya em russo.

 

Gouveia

despesadiaria às 08:43
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