Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

 

Cumpri o dever de nunca perder o norte nem tempo com a busca de um sentido nos objetivos que tracei. Ou que traçaram por mim, não tenho certeza, memória ou interesse em saber o que não pode ser alterado. A futurologia retrospetiva é para os sonhadores, quando dela se pretendem efeitos coletivos que se sabe serem inalcançáveis, e para os cobardes, quando se acabam os lenços de papel. Parto do princípio de que se tivessem posto portagens na autoestrada para Damasco, os factos a partir daí construídos teriam acontecido noutro ponto da rede viária. Que se não me tivessem quebrado os dedos com maldade na porta de fole do elevador, teria abandonado o piano por razões tão válidas como o eram os tendões. Os delírios acerca do percurso de cada um são apenas lenha para o azul da chama do espírito — e eu não tenho espírito, nunca precisei de espírito, tenho um guião que segui à risca e sem risco. Fugi de quem tive de fugir, deixei em branco os espaços que a ignorância permitiu, matei a fome com a carne que os grifos deixaram para trás. Mais que uma das esperanças de plástico importadas do Pacífico, tenho, enfim, o conforto virgem de poder dizer que, se não consegui falhar, foi só porque ainda não me deixaram.



E.

 

despesadiaria às 00:13
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