Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014

...

8h30

 

1. Gustavo deitou-se na noite de 8 de Março de 2014 às 23h50 e acordou às 8h20 do dia 9 de Março de 2006. Demorou a notar que o tempo regredira precisamente oito anos naquela noite. Só quando ouviu baterem à porta do quarto é que percebeu que algo estava errado. Era a sua mãe. Vinha chamá-lo para o pequeno-almoço. Mas isso não podia ser, Gustavo mudara-se há dois anos e morava sozinho desde então. Então reparou melhor: o seu pijama não era aquele com que se deitara, o quarto em que estava era diferente, o seu corpo parecia outro, mais delicado e ágil, mais novo. Gustavo percebeu então que estava no pijama, no quarto e no corpo dos seus dezassete anos.

Apesar do espanto, o que Gustavo mais sentia era um grande alívio: não precisava de ir trabalhar. Até perceber o que se passava, não passaria pelo menos aquele dia no escritório da empresa a corrigir orçamentos e a rever projectos. Tinha de ir para a escola, rápido!, dizia-lhe a mãe. E ele, perdendo toda a necessidade de lógica naquele estado de inverosimilhança, sentiu-se contente em conformar-se ao que a mãe lhe dizia para fazer. Tinha de ir para a escola. E assim foi. Durante quatro meses, Gustavo reviveu com desbragada alegria os seus dias de liceu. Reencontrou os seus amigos de 2014 nas salas de aula, nos campos de futebol e nos cafés. Gustavo reparou na espontaneidade daquelas amizades, no viço e na franqueza que desde então se tinham moderado até ao socialmente recomendável dos vinte e cinco anos. As tardes de conversa nos cafés eram tal e qual como a sua memória as preservara. Faziam-se e desfaziam-se planos inadiáveis como se fumavam cigarros. Alguns, poucos, cristalizavam-se no compromisso do grupo; e assim se marcavam as férias de verão, como se fez naquele ano de 2006.

Gustavo, entretanto, debatia-se com um dilema maior. Na primeira passagem pelos seus dezassete anos, renegara a todas as paixões na promessa de uma carreira estável e bem paga quando, em 2006, se inscreveu na faculdade num curso que sempre detestou. Os pais, os professores, os conhecidos, o establishment e, sobretudo e mais do que qualquer outra coisa, a razão e bom senso – os seus, claro; os seus medos – patrocinaram aquela escolha. Tiveram a sua chance, então. Desta vez, mandá-los-ia todos às urtigas. Aos vinte e cinco anos, Gustavo saltitava desiludido de estágio mal remunerado e frustrante em estágio mal remunerado e frustrante, e não alcança o vislumbre de uma janela para o futuro estável e bem pago que lhe tinham prometido. Pensou então que, para igual desfecho, mais valeria estudar algo de que gostasse realmente, ainda que lhe garantissem solenemente que o percurso seria incerto e tortuoso. Convencida a razão e o bom senso, fez então por convencer todos os outros. Seguro da sua decisão, foi mais fácil do que imaginara. Apenas o establishment se manteve intransigente. Mas, na verdade, pensou, quem se importa com ele?

Em Maio, no dia do seu aniversário, Gustavo anunciou que, ao contrário do esperado por todo, ele não seguiria Engenharia Civil em Lisboa. Decidira, isso sim, que se mudaria para Évora, onde ingressaria no curso de Estudos Urbanos. Todos esconderam o esgar de desaprovanção entre a língua a bochecha, e dificilmente acomodaram o sacudir dos ombros nos confins do esqueleto. Mas, pela primeira vez em oito anos, Gustavo sabia instintivamente que aquele era o caminho certo. Porquê? Talvez porque o instinto proceda das paixões, pensou Gustavo, enquanto recordava o processamento dos almoços sem ambição, sem sal e sem graça, dos seus vinte e cinco anos. E as paixões, como os almoços, concluiu, não se devem moderar nunca. 

 

p.a.leitão

despesadiaria às 19:31
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