Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2014

 

IX

 

Uma lâmpada dependurada no tecto reverberava no alpendre como uma forca esquecida num outeiro em pousio. À sua volta, insectos multiformes esgrimavam entre si a melhor colisão com a luz, gravitavam como loucos por entre as mutilações e os suícidios produzidos pelo festim eléctrico. Uma cadeira com pernas e braços de madeira cinzelada pelo tempo decorava um dos cantos daquele espaço; o estofo tecido por uma breve lembrança do que outrora foi veludo a amaciar o firme revestimento de um esqueleto jovem. Ali esteve, tantas horas, quando a tarde começava a vespertar e o sol passava de margem em margem na transição entre estações com uma exuberância cor-de-laranja, a ferida exposta para secar melhor à luz dourada do dia a desvanecer. De dentro, o rebuliço entre gente que se conhecia há muito, a loiça tilintava, um cão ladrava ao longe alertando para o cair das sombras, ali estava, na ponte entre a marca indelével e a sua tentativa de cura, um fazer desnecessário entre a brevidade e a finitude. Agora, as ruínas compostas por uma digna persistência, atentas, e, dentro delas, objectos que ainda vivem da sua função inicial. Alguém deixara a luz acesa, iluminando memórias, alimentando os fantasmas dos intrusos.

 

gisandra

despesadiaria às 12:29
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014