Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2014

 

Keims

 

As cartas param, finalmente. Fico com quatro rainhas abertas em leque à minha frente. A vitória cheira ao pão com chouriço acabado de sair do velho forno do bar — só o cheiro, e assim se vai manter. Sobre as cartas que sobraram, inúteis, na mesa, cai a mão aberta da adversária da direita; as pálpebras da cor do champanhe mantiveram-se contraídas durante tempo suficiente para o lápis negro deixar um leve rasto de cinza no canto exterior do olho. Aí encosta-se um pontinho que vai dilatando de curiosidade. Fixa-se nas minhas cartas, como se quisesse ver através delas, e depois sobe como um irritante ponteiro laser, procurando as palavras-chave nas rugas na minha testa. Encontra apenas a dúvida e confunde-a com outra coisa; desvia-se num espasmo desiludido e vota-me à dormência pós-almoço — ou assim pensa. Há uma ténue vibração no fundo da minha garganta que é disfarçada pela gola da camisola. A reação mima o nervosismo de quem não quer perder o autocarro mesmo sabendo que não tem hora para chegar ao destino e que a carreira seguinte parte apenas dez minutos depois. Casos desses são falhanços de microscópio, mas a forma como se somam durante um destes jogos de cartas aproxima-se do intolerável. Detesto o keims; demais a mais, esqueço-me sempre do sinal. Olho para a parceira em busca de uma sugestão. A figura estica-se do outro lado da superfície de plástico amarelo como um copo de pé alto, do género usado pelas avós em dias de festa. O jeito como segura as suas cartas, unidas numa só e encostadas ao queixo, desconstrói-se numa canção de funk brasileiro; se fosse mesmo um copo, teria o desplante de exibir um guardanapo de papel no topo, e o penacho triangular murcharia com o vapor dos cozinhados. Não há nada para mim ali, além do quebranto da digestão em traços excessivamente pomposos. Ocorre-me coçar a cabeça; uns olhos ineptos examinam o gesto, e é tudo. À direita desta triste cúmplice, a quarta jogadora endireita-se na cadeira. Prepara-se para a substituição das cartas, é evidente que ainda tem pelo menos uma para a troca: a pose de mergulhadora denuncia-a. A atenção cola-se às mãos que retiram as cartas do baralho e as colocam lentamente na mesa, responsabilidade que torna à adversária da minha direita. Esta parece concentrar-se exclusivamente na tarefa, mas a franja pintada esconde a maquilhagem esborratada e a astúcia daquela rival. Enquanto coço o nariz, deixo de acreditar que o meu nervosismo é silente: só consigo ouvir o pulsar do sangue contra têmporas como se me quisesse rachar o crânio. Será que o sinal ainda importa? Pela expressão, a minha parceira delicia-se com um filme francês que suponho passar na ponta do meu nariz. Estou perdida em um, dois, três: à sua maneira, as minhas companheiras de jogo atacam a mesa. Eu mantenho-me quieta, com o esgar das quatro rainhas encostado ao peito. Numa questão de segundos, sentirão sobre elas o peso da derrota.

Credo, não posso levar as cartas tão a sério.

 

S. White

despesadiaria às 16:22
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