Terça-feira, 30 de Dezembro de 2014

 

Chegada a sua vez, Ricardo escreveu no papelinho que lhe foi passado pela direita as suas três carreiras de sonho, para o grupo poder discutir com ele cada uma das escolhas. O primeiro papelinho dizia vampiro, o segundo astrofísico, e o terceiro contrabandista de cerveja na eventualidade de uma proibição da cerveja. Vampiro era o que sempre todos escreviam, e percebia-se o apelo, o próprio moderador do grupo era um há já muitos anos. Mas as autorizações dependiam da densidade populacional do concelho e da caracterização das actividades económicas locais. Em Peniche era complicado. A astrofísica exigia um passado, ou pelo menos uma infância, e não era decisão que se pudesse tomar de um dia para o outro, mas os restantes ficaram animados com a ideia e debateram-lhe a viabilidade com entusiasmo. Nervoso, Ricardo foi obrigado a interrompê-los e confessar que só tinha escrito astrofísica por vergonha de deixar em branco o terceiro papelinho, optando pelo maior disparate que lhe ocorrera. Para a terceira carreira, a de contrabandista de cerveja, pediu silêncio e tentou explicar:

- Quando eu morava no Porto, havia na minha rua duas strippers que se encontram uma vez por semana num banquinho de madeira, já tarde; calculo que era quando largavam o serviço. Ficavam mesmo debaixo de um candeeiro, sob a minha janela, donde consegui um ângulo morto para poder vê-las e ouvi-las sem que dessem pela minha presença. Compravam sempre seis latas de Sagres cada uma e um maço de cigarros que dividiam. Conversavam sobre muitos assuntos, sem polemizar, sem quererem persuadir ou serem persuadidas, eram vagas e até crípticas, mas sem recorrerem a mitos ou metáforas. Eram muito interessantes e eu ouvia-as com gosto todas as noites. Nunca se embebedavam. Na última semana antes de me mudar para cá, uma delas trouxe uma garrafa de whisky novo e dois copos de plástico brancos, daqueles pequeninos de máquinas de café. Enquanto servia a amiga contou a seguinte história:

Hoje é whisky, Marina, mas eu explico. Neste dia fazia anos o meu pai, que como sabes era contrabandista em San Serife, onde conheceu a minha mãe e onde nasci. O meu pai contrabandeava tudo o que era proibido na ilha, desde cadeados a ukeleles, e nós levávamos uma vida sem dificuldades. Pensarás que num sítio como San Serife toda a gente levava uma vida sem dificuldades, mas não era bem assim. A ilha estava dividida em duas pelo paralelo 38 (sim, é engraçado, mas não, a nossa ilha era no Mediterrâneo, mesmo junto à Sicília). A Norte vivia-se do turismo e quem tivesse um emprego no sector tinha um rendimento aceitável apesar da exploração. A Sul, onde vivíamos, era tudo um bocadinho mais complicado. Só havia oliveiras, lagares, e contrabandistas. Long story short, quando o azeite foi ilegalizado o meu pai ficou muito contente e montou um negócio de turismo rural adaptando os lagares que tinham sido entretanto nacionalizados e posteriormente vendidos em hasta pública. Este negócio servia de fachada para o contrabando de azeite, mas quando, anos depois, se proibiu também a cerveja, o meu pai perdeu tudo para um contrabandista rival do norte, monopolista de lúpulo, que lhe levou o negócio e a minha mãe. Quando chegou a altura de escolher, a minha mãe, de malas feitas, disse-me «filha, tens de vir com a tua mãe», e o meu pai disse-me «filha, tens de ir com a tua mãe», portanto eu decidi ficar com o meu pai. Que no dia seguinte morreu enquanto lavava os dentes (engoliu a tampa da pasta, não sei como fez ele aquilo) e eu fui para o aeroporto decidida a apanhar o primeiro avião que saísse dali para fora. Por azar era Lisboa, ainda hesitei, mas tinha-me comprometido com o primeiro vôo e na altura pareceu-me importante. Cheguei lá sem dinheiro e com duas latas de mau azeite.

Passou e parou entretanto o camião do lixo e não consegui ouvir mais. Quando se foi finalmente embora, já falavam de escritores argentinos. Só que nesse mesmo dia, ou nessa mesma noite aliás...

 

Um alarme de telemóvel anunciou o final da sessão e todos os presentes arrastaram as cadeiras aliviados, acenderam cigarros e dirigiram-se para a Nespresso na mesa de apoio, excepto Ricardo, que ficou sentado de frase suspensa, a pensar na cerveja, em strippers e vampirismo. Uma mulher que partilhava com Ricardo ainda outro grupo de ajuda mútua, voltou com dois cafés na mão e perguntou-lhe se havia verdade na história. Ricardo passou a língua pelos seus decepcionantes caninos antes de responder.

 

Gouveia

despesadiaria às 13:47
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