Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2015

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CRESO E O DESTINO, por Lev Tolstói*

 

Nos tempos antigos – antes, muito antes da chegada de Cristo – reinou sobre determinado reino um grande rei chamado Creso. Este monarca possuía infindáveis reservas de ouro e prata, e numerosas pedras preciosas, bem como incontáveis soldados e escravos. Na verdade, ele acreditava que em todo o mundo não podia existir um homem mais feliz do que ele próprio.

Certo dia sucedeu estar de visita ao reino de Creso um filósofo grego, de nome Sólon. Por toda a parte Sólon era conhecido como homem sábio e justo; e, tendo a sua fama também chegado aos ouvidos de Creso, o rei ordenou que o sábio fosse conduzido à sua presença.

Sentado no alto do seu trono, e ornamentado com as suas vestes mais luxuosas, Creso perguntou a Sólon: “Já alguma vez viste algo mais esplêndido do que isto?”

“Com certeza que já vi”, respondeu Sólon. “Pavões, galos, e faisões, resplandecendo de cores tão diversas e brilhantes, que nenhuma arte se pode comparar a eles.”

Perante esta resposta Creso ficou em silêncio e pensou para si: “Uma vez que isto não é suficiente, deverei mostrar-lhe algo mais, para o surpreender.”

Assim, exibiu todas as suas riquezas perante o olhar de Sólon, ostentou-lhe o número de inimigos que destruiu, e ainda o número de todos os territórios que conquistou. Depois disse ao filósofo:

“Já tens uma longa vida neste mundo, e já viajaste por muitos territórios. Diz-me quem tu consideras ser o homem vivo mais feliz?”

“Creio que o homem vivo mais feliz é um certo homem pobre que vive em Atenas”, respondeu Sólon.

O rei ficou perplexo com esta resposta, uma vez que estava certo que Sólon iria nomeá-lo a ele próprio; todavia, apesar de tudo o que lhe fora exibido, o filósofo nomeou um indivíduo perfeitamente desconhecido.

“Por que razão afirmaste tal coisa?” perguntou Creso.

“Porque,” respondeu Sólon”, “o homem a que me refiro trabalhou arduamente toda a sua vida, satisfazendo-se com pouco, criou filhos sãos e esplêndidos, serviu a sua cidade de forma honrada, e conquistou uma nobre reputação.”

Ao ouvir esta resposta, Creso exclamou:

“E julgas a minha felicidade como nada, e consideras que não sou apto a ser comparado com o homem de que falas?”

Ao que Sólon respondeu:

“Não raro acontece que um homem pobre é mais feliz do que um rico. Não chames feliz a um homem antes da sua morte.”

Desta feita o rei mandou embora Sólon, dado que não ficara agradado com as suas palavras, nem tampouco acreditara nele.

“Às urtigas com a melancolia!” pensou ele. “Enquanto um homem viver ele deverá viver para o prazer.”

E com isto o monarca esqueceu rapidamente Sólon.

Não muito depois deste encontro, um filho do rei feriu-se a si próprio, por acidente, durante uma caçada, acabando por morrer devido ao ferimento. Nessa mesma altura, Creso foi informado que o poderoso imperador Ciro aproximava-se para invadir o seu reino.

Assim, Creso preparou-se com um grande exército e foi ao encontro do invasor, mas o inimigo provou ser mais forte, e, saindo vitorioso da batalha e tendo esmagado as forças de Creso, penetrou na capital do reino.

Logo de seguida, os soldados invasores começaram a pilhagem de todos os tesouros reais, chacinando os habitantes, saqueando e incendiando a cidade. Um dos soldados capturou o próprio Creso, e quando estava prestes a trespassá-lo, o filho do rei lançou-se para defender o seu pai, gritando:

“Não lhe toques! Este é Creso, o Rei!”

Perante isto os soldados prenderam Creso, e levaram-no até ao Imperador; porém, como Ciro estava no banquete de celebração da vitória, não podia falar com o prisioneiro, e ordens foram dadas para que Creso fosse imediatamente executado.

Para esse efeito os soldados erigiram no centro da praça da cidade uma grande pira, onde colocaram o Rei Creso, preso a uma estaca, e de seguida atearam-lhe fogo.

Nesse momento Creso contemplou todo o seu redor, a sua cidade e o seu palácio. Aí recordou-se das palavras do filósofo grego, e, banhado em lágrimas, apenas conseguiu dizer:

“Ah, Sólon, Sólon!”

Estavam os soldados rodeando a pira quando o Imperador Ciro chegou em pessoa para assistir à execução. E enquanto se aproximava ouviu as palavras pronunciados por Creso, mas foi incapaz de as compreender.

Ordenou, assim, que Creso fosse retirado da fogueira, e perguntou-lhe que palavras eram aquelas que acabara de dizer. Creso respondeu:

“Eu estava somente a pronunciar o nome de um homem sábio – um que me contou uma grande verdade – uma verdade cujo valor é superior a todas as riquezas terrenas, superior a toda a nossa majestosa glória.”

Creso acabou por relatar a Ciro toda a sua conversa com Sólon. A história tocou de tal maneira o coração do Imperador, consciencializando-o que também ele não passava de um mero mortal, e que não podia conhecer o que o Destino tinha reservado para ele. No final teve clemência para com Creso, e tornou-se seu amigo.

 

 

*Esta é uma tradução livre, da minha responsabilidade, do pequeno conto de Tolstói sobre o encontro do Rei Creso com Sólon, a partir das Histórias de Heródoto. 

 

nev

despesadiaria às 12:46
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