Quarta-feira, 16 de Abril de 2014

 

Recordo praias selvagens, velhos tecendo redes de pesca, o cão preso por um cordel a uma bóia enfiada numa estaca, caminhos de sirga, paredes onde se lê Amo-te Sónia, escumantes volutas de desejo sintetizadas no rufar granuloso de borboletas nacaradas, corolas a que faltam pétalas, baloiços sem folgo, tu e eu... memórias como pinturas desbotadas, sonhos diariamente exibidos e nunca reclamados, prenhes de ambições gloriosamente banais... canções dilaceradas por trompetas de caça, firmes estátuas sacudidas por gentis sopros outonais, a amorfa palpitação de uma crença vazia... matizes artificiais ensopados de tédio, vigílias onde nenhuma vela arderá mais... fiascos eternamente sedutores... vidas gangrenadas por ébrios fantasmas, zurzidos mas não esquecidos, como doces tropeções de brincadeira numa tarde de Verão... jovens entesoados e deprimidos, elaborando revoltas a que sempre faltou espessura, fragmentos a que nenhum mosaico dará sentido... rituais tétricos, fachadas ocres e sinos jubilantes... campos maquilhados a cores matutinas, a frequência familiar, vozes que inibem e consolam... paixões anémicas, amarguras cintilantes, interiores entupidos de frescos vulneráveis, claustros de pavor... dias solares e dias sombrios, o fim que nos deram e que se escolheu.

 

pmramires

despesadiaria às 14:05
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