Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2015

 

Eu também não gosto de surpresas.

 

Quando a pilha de formulários empalideceu e a portada da janela à esquerda da secretária se fechou, a Menina M rodou na cadeira, pegou na mochila e saiu; rolou escada abaixo e terminou oficialmente a labuta saltando do penúltimo degrau para o trinco da porta do número 33. A espantosa manobra — dois tempos sustidos na atmosfera bolorenta — devia a majestosidade ao hábito, e o hábito devia-se ao mesmo vício que obrigava a Menina M a contar todos os dias o número de post-its amarelos que lhe restavam e a apontá-los num caderninho. Como noutra sexta-feira qualquer, roeu as unhas nos semáforos da Rua R, espremeu-se entre o caixote do lixo e a amostra humana do Beco B, e chegou à Avenida A com um suspiro. Estudou a posição dos ponteiros no seu relógio e não se surpreendeu com o atraso; quando ângulo obtuso já prendia alguns números, a Menina M recordava a sua pressa e estugava o passo.

Mas ao descer apressadamente a avenida, com o barulho dos saltos altos a cumprimentar as primeiras estrelas, reparou que a Senhora S, personagem tão habitual ali quanto o candeeiro eternamente fundido na distante Travessa T, se transformara num par de cães de porte médio. Os animais estavam presos por cordas à coluna na qual a pedinte se encostava, gemendo estilhaços e guardanapos sujos; as unhas compridas e amareladas dos bichos raspavam o cobertor encarnado onde antes se espalhavam as ancas da mulher. O fenómeno, uma verdadeira metamorfose, foi notado a dez unidades de distância. A Menina M parou e bebeu todos os instantes da descoberta como se bebe um xarope para a tosse: os traços abaulados da pedinte refletiam-se na barriga protuberante dos cães; o tom pardacento do pelo não deixava esquecer o cocuruto desgrenhado que costumava estender o copo sujo a quem passasse; humana e animais partilhavam a mesma expressão indolente que todas as pessoas felizes encaram como sofrimento. Era impossível de ignorar. A Menina M agarrou-se ao peito. Sentia labaredas nos pulmões. Um pulsar frenético fazia vibrar a pele do pescoço; deitou os dedos ao pulso, tentou a matemática mas os números perdiam-se nos caracóis encrespados dos cães. Não conseguia deixar de olhar para eles, para o bafo quente que desenhava fractais no espaço.

Finalmente, o horror a puxou-a dali numa corrida, mas o atraso culminou na fuga do comboio: os ponteiros uniram-se e a composição partiu com o eco dos seus passos no fundo do terminal. Dali a vinte minutos, outro se lhe seguiria; a cadência pontual da Linha L não se deixa perturbar por mulheres que se transformem em cães, nem por cães que se transformem em mulheres. Um sinal: tudo iria correr bem. No dia seguinte, a Menina M já saberia ignorar os cães.

 

S. White

despesadiaria às 21:36
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014