Sábado, 10 de Maio de 2014

 

essas ardentes vias, I

 

Are you not weary of ardent ways,

Lure of the fallen seraphim?

 

James Joyce

 

Now see I

That warmth’s the very stuff of poesy.

 

T.E. Hulme

 

 

Daniel acordou. Andou pelo seu quarto; entre o computador e a estante viam-se três latas de Redbull, um pacote de batatas fritas, vários livros e um corpo de uma mulher de 42 anos. A mulher estava viva, Daniel também, conquanto a palavra seja mais imprecisa do que parece. Observou os pêlos púbicos ruivos da matrona que manchava de suor o seu chão empoeirado; a respiração dela, pesada e laboriosa, criava uma dulcíssima dissonância. “Uma Helena sem charme ou para lá do charme. Menos mal, nem guerras nem chatices”, pensou Daniel.

 

Tinha dormido apenas duas horas, pois insistia em não dormir como toda a gente – uma mania inocente e pouco produtiva. O sono polifásico dava-lhe tempo reflectir sobre a sua inactividade e acrescentava alguns farrapos de pretensa originalidade à sua vida. Bateu com a porta do varandim no pé; agitou, iracundo, as pernas glabras numa coreografia digna de Toulouse-Lautrec, a fúria em toda a sua superfluidade; depois de umas canoras caralhadas, percebeu, já exausto, que não tinha tabaco – os sofrimentos deste homem não tinham fim. Resolveu sair para comprar tabaco.

 

A noite era já plena. Adivinhava-se o bulício das estudantes universitárias e das probas estudantes do sexo oral. Daniel sentiu-se excitado, já com um cigarro na boca exalava volutas para o ar ameno; pensava em aventurosos encontros que acabam por nunca acontecer. Recebeu um SMS de Vergílio, um iniciado nos rituais da noite e um encantador brochista de conas: «td bem meu caralho? hj há festa grossa. aparece na rulote do zé». Não pensou duas vezes. Respondeu: «Não te enfadam já essas ardentes vias? Lá estarei, rabeta». Será que Joyce curtiria bué desta mensagem? Talvez. Divertiu-se com esta ideia durante 33 segundos. Estugou o passo.

 

Chegou ofegante à rulote do Zé que se chamava, muito apropriadamente, Zelote. Zé afirmava, cheio de prosápia, que nunca tinha lavado as mãos e defecava com frequência atrás da rulote; por vezes, quando se sentia mais generoso, dava as mãos a cheirar a um freguês: “cheira a racha de Erasmus, amigo”, dizia com uma notável sprezzatura; duas vénias ou um olé eram as respostas mais frequentes. As iguarias servidas fartavam os brutos e funcionavam como um benéfico vomífico para os menos varonis. Comer na rulote do Zé era um rito de passagem que vitimava a bravata típica de certos machos da espécie e a incauta alegria doutros. Nunca morreu ninguém.

 

– Esta noite é para os resistentes! – disse um sujeito anafado.

 

– Somos os maiores! – respondeu um pelintra.

 

Daniel ouvia desinteressadamente estas inanidades, “a gloríola a três passos do vómito ou eu daqui a três horas?”, pensou. Vergílio nunca chegava a horas. Continuou a acompanhar a camaradagem ébria do gordo e do maltrapilho.

 

– Dantes é que se faziam noitadas das boas! – gritou o gordo.

 

– Imagino, eu no Ultramar depois de despachar dois ou três ainda despachava duas ou três, – o maltrapilho ria-se com gosto.

 

– Não brinques com isso, pá! Morreu muita gente a defender esse império da loja dos trezentos!

 

– Eu não morri, mas comprei a tua mãe por trezentos paus.

 

Gerou-se um alarido alacre. A chusma apreciava estes conflitos fátuos e acicatava o circo porque o pão era fraco. Daniel estava entretido e enojado ao mesmo tempo. Os dois heróis pícaros exaltavam-se com a sua própria gritaria, mas evitando lutar, o que exasperava os espectadores.

 

– Temos cá senhoras? Se fosse comigo já te tinha partido todo, meu badocha! – disse uma voz no meio da turba.

 

A vozearia recrudesceu. Ouviam-se pessoas a defender as virtudes militares, o império, o patriotismo; outros defendiam ideias opostas e alguns defendiam o que calhava nos intervalos para a tosse. A certa altura, um rapazote de aspecto famélico pontapeou o gordo nas costas e os restantes aproveitaram a deixa. Daniel afastou-se, apreciando a cena; os mais expeditos e destros aproveitaram-se do inebriamento dos restantes que nem um murro conseguiam desferir; os bêbados eram, contudo, os mais castiços com as suas caretas e gestos sem sentido. Daniel, quando tudo parecia mais calmo, deu um pontapé no, caído e ainda mais andrajoso, defensor do império só para marcar presença.

 

– Vais comer pela medida grande!

 

Entrementes, Vergílio chega e repara no sangue na bota de Daniel.

 

– Que se passou? – perguntou Vergílio sem grande curiosidade.

 

– Baratas.

 

– Morreram?

 

– Não, resistem a tudo.

 

Os olhos inexpressivos de Vergílio brilhavam por causa da miopia, do fumo e do cansaço; orgulhava-se de estar sempre cansado. Fazia isto e aquilo e conhecia toda a gente, o que muito irritava Daniel, um acedioso por natureza – todo aquele frenesim parecia-lhe fútil. Percorreram, a passo largo e quase sem falar, os poucos metros que os separavam da Averno, uma discoteca em voga por ser antiquada.

 

Na entrada da discoteca encontrava-se um grupo variegado: uma mistura de janados e hipsters, que eram demasiado fixes para frequentar aquele antro, mas demasiado fúteis para dele ficarem completamente arredados. Alguns faziam por parecer rebeldes – a rebeldia esgotava-se nos penteados e nas calças coloridas –, outros queriam parecer misteriosos, oraculares – ai de mim, Cassandra –, envoltos num denso fumo de Cannabis sativa e de leituras enviesadas. Daniel chamava Senado ao grupelho e Vergílio seria o seu césar, não conhecesse ele o destino dos imperadores, “não há idolatria que não redunde em chatices”, costumava dizer.

 

– Vamos lá ver o que se ladra por ali, – disse Vergílio, apontando ostensivamente para os senadores.

 

– A salvação do mundo em três horas, o Vale de Josafat e a Shakira de quatro, como é costume, Deus os abençoe! – murmurou Daniel persignando-se comicamente.

 

– Três horas parece-me excessivo.

 

Aquele grupo pequeno e garrido, com os seus olorosos charros e a suas brilhantes ideias, não deixava de ser curioso: lá estavam os especialistas no tema do último artigo que tinham lido numa revista americana – uma maneira elegante e quase inteligente de perceber o mundo; os documentaristas das realidades mais esquálidas que faziam do seu cinismo e estupidez uma virtude; os tipos que lhe chupavam os documentários entre o sono e a ressaca; os investidores e divulgadores, uma casta mais pragmática, porque o dinheiro assim o exige, e mais atraente porque tinha o poder de afamar a próxima mediocridade genial; os escritores com um romance quase pronto há mais de dois anos, vivendo desse crédito imaginário e de um emprego num restaurante de fast-food; os críticos da cultura, da contracultura e de tudo que dê de comer; os polícias do gosto – o Bom, o Feio, o Mau e o Belo, muitas definições lapidares e muita comichão; os angustiados simpáticos; os defensores das teorias da conspiração; os debunkers das teorias da conspiração; as meninas bonitas com penteados terríveis…

 

Daniel e Vergílio juntaram-se aos senadores. O ambiente estava inesperadamente calmo, trocavam bafos de porros mal enrolados e elogios mal industriados. “Um pacífico circle jerk”, pensou Daniel. Vergílio cumprimentava toda a gente com meio sorriso e a testa franzida; via-se o receio nas suas palavras, a hesitação era evidente: a) poderia ser sincero e ceder ao prazer momentâneo de atacar esta de intelligentsia de lantejoulas; b) poderia ter um futuro. “Espero que a minha inteligência e o meu ânus sejam do seu agrado, senhor”.

 

Fumaram sofregamente algo com um sabor terrível.

 

– O que é isto? – perguntou Daniel disfarçando a tosse.

 

– Pó dos anjos, meu amor! – respondeu alguém.

 

– Amém – gritou Daniel desconfiado.

 

– Nah, é só uma erva malcheirosa do malcheiroso Loureiro. – disse Vergílio agudamente – Ninguém quer ver-te alucinar, fica descansado.

 

– Alucino todo o santo dia! – sussurrou Daniel ainda assustado.

 

Tinha medo de alucinar. Daniel era um anacoreta não praticante e receava despertar o seu lado místico. Lembrava-se amiúde de uma experiência que teve com cogumelos que alguém teve a caridade de filmar – a ignomínia em troca de milhares de likes no YouTube. Parece que, depois de ter consumido uma dose prudente de cogumelos, tentou formar uma religião. Uns riram-se outros choraram. Num furor quase dionisíaco subiu a montanha, citou Nietzsche e outros filósofos para mancebos, urrou, chorou, despiu-se e tentou partilhar a seiva adâmica com os eleitos; depois comeu amoras, “isto é tão simples”. Chegou a casa envergonhado, escoriado e com a língua azul. “Nunca mais”, pensou Daniel.

 

Começaram a discutir um filme recente, um drama pobre sobre gente pobre de um realizador muito contente em chafurdar em tais meandros – interessante mas esquecível.

 

– É um retrato perfeito do mundo dos delinquentes! – afirma um homem com o cabelo cuidadosamente despenteado.

 

– Então não me interessa nada – disse Daniel distraidamente enquanto tentava cuspir o resto da erva malsã que tinha fumado.

 

– Gostas mais desse cinema burguês, não é?

 

– Mas esse tipo de filmes é a quintessência da arte burguesa, uma perspectiva burguesa sobre os gebos, coitadinhos!

 

– Gostas de tudo bonitinho e postiço?

 

– Quase como o teu penteado. Mas não gosto desse tipo de filmes porque por um lado sou um esteta, por outro lado não tenho paciência para filhos da puta – coroou Daniel entediado.

 

– É só um filme – declarou Vergílio, o conciliador.

 

O cinéfilo despenteado afastou-se e beijou a namorada, de olhos abertos, atestando a sua virilidade. Daniel continuava a cuspir para o chão cada vez mais indisposto. O cheiro não o deixava pensar claramente e aquelas conversas cruzavam-se no seu cérebro como o barulho de carros desgovernados numa estrada distante. Augurava acidentes. “Começamos mal”, pensou. Pensou em sair dali mas Vergílio já entretinha as fantasias de outro bobo.

 

– Isto é tudo planeado.

 

– Mas como é possível calar essa gente toda, mais tarde ou mais cedo a verdade saber-se-ia.

 

– Não, se os gajos nos andam a envenenar o pessoal imagina o que fariam aos delatores.

 

– Isso não faz sentido nenhum.

 

– Pois, isso é que a propaganda quer que tu penses. Os doidos escaparão e depois eu é que me vou rir.

 

– Rir de quê? Eu, mesmo que acreditasse nisso, não sei se queria escapar.

 

As vozes sucediam-se indistintas, falavam de chemtrails, água venenosa, escravidão, era tudo um plano do governo para calar os dissidentes. Daniel não percebia uma palavra. Agachou-se para atenuar a náusea. Vergílio ofereceu-lhe uma garrafa de água.

 

– Para o Monte de Sinai, chefe! – brincou Vergílio – Já chega de patetices.

O alígero Vergílio conduziu Daniel, que começava a sentir-se melhor, até à porta da discoteca. A porta anacrónica – cheia de estátuas, pátina e merda de pombo – era medonha, uma estrambótica combinação de mau gosto e pedantismo. Um mar de gente esperava para entrar. O porteiro parecia uma caricatura duma estátua de Praxíteles: os músculos insuflados atrofiavam-lhe os movimentos; o pescoço vasto, que dava para várias cabeças, encimava o crânio espalmado; as orelhas retesas seguravam uns óculos ovais. Vergílio saudou-o com familiaridade. O porteiro olhou de soslaio para Daniel.

 

– O seu amigo tem sangue na bota. Isso é contra as regras da casa. Parece mal.

 

Vergílio, o dos mil artifícios, pegou lestamente num lenço e limpou a bota de Daniel que apreciava o espectáculo; o porteiro sentia-se confuso – queria bajular Vergílio, mas também queria exercer o seu pequeno poder de meter nojo; a reposição de testosterona deixava-o mais belicoso do que o normal e já tinha partido os dentes a dois clientes esta semana.

 

– Olhe que ele porta-se bem, não faça caso.

 

– Mas são as regras da casa, sabe como é que é. Ele parece já estar mais para lá do que para cá.

 

– Considero isso um elogio, senhor. Sou um poeta! – disse vivazmente Daniel. – Além disso, o sangue era de um mártir do Império.

 

– Poetas nunca nos faltaram, graças a Deus! – disse o porteiro rindo altivamente – Passe lá, mas se não meta em sarilhos.

 

– Palavra de honra.

 

Entraram. “Ter que pedinchar para entrar nesta estrebaria. Indócil sorte a minha, fugi aos degraus do Parnaso para vir a um festival de frustração”, pensou Daniel enquanto observava as pessoas presentes. Ficou acabrunhado, toda a excitação dissipou-se. A música infiltrava-se nos seus pensamentos, a batida do dubstep, distorções, vozes robóticas – tudo o entorpecia. Via braços no ar. Luz e Escuridão. O calor vermelho do fumo, da transpiração e da tensão sexual. Saias curtas perfilavam-se em estilizadas sombras nas paredes. Extrema brancura. Luz e Escuridão. De olhos semicerrados absorvia aquelas imagens fantasmáticas. Bacantes de meias de vidro, bárbaros de wife-beater e querubins caídos pelos cantos mais obscuros, afastados, quietos e sorumbáticos. Tudo lhe parecia deformado e ridículo mas via em alguns uma alegria primitiva, quase bela, um desejo de esquecer tudo e reviver alegrias passadas, a primeira bebedeira, o primeiro amor, a primeira foda…

 

Vergílio falava aparentemente.

 

– ???????

 

– ???????

 

– ???????

 

SHOTS? ­– gritou Vergílio

 

– SIM.

 

Dirigiram-se a um dos bares. A música mudou, ouviram-se uivos de alegria e quase todos cantavam:

 

Everybody get up

Everybody get up

Hey, hey, hey

Hey, hey, hey

 

Vergílio pediu absinto para ambos. Alegria em estado líquido. O sabor floral encheu a boca de Daniel e o calor encheu-lhe o corpo de ousadia.

 

– Outro?

 

– Outro.

 

Começava a entender tudo; os gestos mais insignificantes, esgares involuntários, toques casuais pareciam-lhe carregados de sentido. Sentiu-se leve. “Uno, o diverso, um porco-espinho a atravessar uma auto-estrada, Tesla apaixonado por um pombo… É claro.”

 

– Outro, caralho!

 

I know you want it

I know you want it

I know you want it

 

A via direita era perdida. Foram engolidos pela multidão. Daniel apenas via lampejos da realidade e sorria estupidamente revirando os olhos; via os pequenos grupos de meninas do liceu, licenciosas a medo, bebendo bebidas coloridas pelas palhinhas tímidas, “o seu B.I., menina?”, pensou; via homens desajeitados abraçando a tarefa impossível que é parecer másculo a dançar; via mulheres de meia idade, que foram industriadas para serem princesas por progenitores papalvos, desiludidas e sem expectativas, como ele gostava; via as suas pernas enroscarem-se numa mulher de sapatos brancos, vestido azul com bolas brancas, sem lhe ver a cara.

 

Hey, hey, hey

Hey, hey, hey

Hey, hey, hey

 

Não sabia se devia tentar ver-lhe a cara, nem sempre é bom revelar o que está escondido. Fechou os olhos, sentiu-lhe a firmeza do corpo; ela sustinha o cabelo levemente ondulado com mão esquerda revelando o pescoço fino; cheirava a pêssegos e a suor. A música mudou.

 

Hands down

I’m too proud for love

But with eyes shut

It’s you I’m thinking of

 

O cu dela, perfeitamente delineado, subia-lhe pela perna esquerda acima. Abraçou-a; sentiu-lhe as mamas delicadamente manufacturadas num laboratório venezuelano qualquer; acariciou-lhe a pele tisnada com um prazer moroso e meticuloso; beijou-lhe o pescoço. Ela cedia, como se perdesse as forças, caindo sobre ele em peso.

 

I think I’m a little bit

Little bit

A little bit in love with you

 

Virou-a para si. Perscrutou-lhe os olhos garços; ela afastou-se suavemente ofertando os últimos meneios da resistência protocolar. Daniel apertou-lhe as firmes nádegas em forma de coração com ambas as mãos. É aqui e é já. Beijou-a sofregamente. Perdeu a noção do tempo. Trocaram saliva com sabor a Listerine e a sopa de lentilhas durante longos minutos. Abria os olhos a espaços, via gente quase sem roupa em cima das colunas, escuridão, luz; sentia uma alegria cristalina; pisava copos partidos sem perceber, o pé latejante não o incomodava – a porta do varandim e o pontapé no maltrapilho pareciam-lhe agora distantes e risíveis. É aqui e é já. Colocou a mão direita entre os dois corpos, pressentia-lhe a linha do ventre, desceu aquela via ardente, cauteloso, apreciando cada relevo. Beijou-a. Sentia os lábios dormentes e túmidos. Encontrou um relevo estranho. Ela/ele olhou-o com uma cara culpada. Daniel ficou sóbrio em segundos; não sabia se devia vomitar-lhe os sapatos brancos ou chupar-lhe o pénis encarquilhado. Não é aqui, nem é já. Beijou-a educadamente nos lábios.

 

– Tenho de ir ao W.C., meu amor – disse Daniel – Já volto.

 

Afastou-se rapidamente. Não conseguia parar de rir. Já na casa de banho, fintou destramente as poças de vómito no chão pegajoso. “Um pequeno passo para um bêbado, um grande passo para a Higiene”. Não conseguiu suster o vómito, urinava e vomitava ao mesmo tempo. Apoiou a cabeça na porta infecta; começou a ler, com os olhos cheios de lágrimas, as inscrições apócrifas:

 

1 - Assim morreu Napoleão com as calças na mão.

2 - Aqui nasceu e viveu Yoko Ono até conhecer John Lennon.

3 – Caga a cantar que os cagalhões saem a dançar.

 

Não conseguia parar de rir. O chão eivado de urina e vómito, o transexual, a sua estultícia – tudo lhe parecia hilariante. Vergílio estava à porta da casa de banho. Daniel correu na sua direcção

 

– Que se passou? – perguntou bruscamente.

 

– Estive a brincar com os colhões de Tirésias – respondeu Daniel divertido.

 

– Estás borrachão, pá!

 

– Não o suficiente.

 

– Precisas de água…

 

– Benta, por favor.

 

As pistas começaram a ficar vazias. A luz, mais intensa agora, convidava as pessoas a sair; via-se o lixo e as ilusões perdidas. Mulheres de maquiagem descomposta saíam apressadas e só a pista latina tinha ainda algum movimento. Daniel e Vergílio sentaram-se nos sofás com uma garrafa de champanhe que Daniel pedira.

 

– Tens dinheiro para isso? – perguntou Vergílio.

 

– Não te preocupes, já não tinha dinheiro para os shots.

 

– Que caralho! Eu estou teso.

 

– Só tens que te arrepender no dia do juízo final, fica descansado.

 

Um sujeito desengonçado passou por eles, tinha uma amarela caminha justa que revelava uma bojuda barriga. Não reparou neles nem na sumptuosa garrafa de champanhe. Começou a tocar um tango de Piazzolla; três pares precipitaram-se para a pista. O barrigudo de camisa amarela dançava com uma mulher voluptuosa de vestido vermelho, completamente alheado do resto da sala. Daniel e Vergílio assistiram à metamorfose do barrigudo: movia-se, galhardo e confiante, e parecia agora quase atraente.

 

– A síndrome de Samsa invertida! – disse Daniel enquanto bebericava o resto do champanhe.

 

– Quero sair daqui.

 

– Espera que está quase. É o último tango.

 

A música parou, a pista estava a fechar. Daniel deu um salto e começou a aplaudir; foi cumprimentar o barrigudo mas quando este lhe estende a mão desfere-lhe um murro nas costelas. Pontapé aqui, murro acolá, uma festa. Os seguranças correm atrás de Daniel que está, por alguma razão, sem camisa e sem calças – parecem cães atrás de um gato. Quando finalmente o apanham Daniel desmaia. Vergílio tenta acalmar os ânimos mas os guardas não andaram vinte anos a inchar os músculos para nada. Depois de alguns pontapés conscienciosos, em partes do corpo pouco visíveis, atiram Daniel pela porta fora. Atiram também a roupa que cai majestosamente na cabeça de Vergílio que tenta reanimar Daniel, este dá acordo de si rapidamente.

 

– Estás a ver, não paguei a conta! ­– disse Daniel forçando um sorriso.

 

– Não vais acabar bem.

 

– Nem eu nem ninguém.

 

Não conseguiu encontrar um dos sapatos. Sentia agora a dor no pé descalço que atenuava as outras dores. Tentou andar mas a dor impedia-o de dar mais de três passos. A luz rósea da manhã ainda jovem aveludava as dores de Daniel. Andou mais uns metros ao pé-coxinho. Não dava. Chamaram um táxi.

 

– Para longe deste inferno, patrão! – transmitiu Vergílio ao taxista.

 

Daniel amodorrou-se no banco traseiro ouvindo a chalreada do taxista. Recordou a noite. Opróbrio. Subitamente com fome disse:

 

– Vamos parar para comer.

 

– E vais matar alguém para não pagar a conta desta vez? – questionou Vergílio carrancudo.

 

– Não, pagas tu.

 

Chegou a casa. Subiu os degraus íngremes sem dificuldade, eram as propriedades curativas do seu lar ou as propriedades punitivas do mundo? Não sabia. O pé já não o incomodava. “Portas e mártires não me fazem mossa”, pensou.

 

A casa cheirava a refugado e bafio, abriu duas janelas para deixar entrar o ar da manhã. A ruiva dormia ainda no chão, compondo ainda muito diligentemente o seu trio de cordas, bronquite e peidos. Da rua vinham os barulhos da passarada e do ocasional carro. Ligou o computador para confirmar que ninguém lhe ligava nenhuma. Correcto e afirmativo. Consultou o Facebook, o YouTube, o Reddit e o Twitter, essas oportunas vias para ser importuno. Rechaçou três argumentos e começou duas discussões. Decidiu tomar banho, porque as suas mãos retinham ainda o cheiro das proféticas bolas de Tirésias.

 

Depois das abluções, ungiu-se com um óleo maçã que pertencia à sua irmã. Sentia-se fresco e forte. Na cama, comeu duas bolachas com chá preto. Os lençóis cheiravam o mijo, suor e sémen. Não conseguia dormir; remexia-se na cama mas as recordações de episódios insignificantes da sua infância consumiam-no; ademais, ainda tinha a música da discoteca nos ouvidos e não conseguia habituar-se ao silêncio. Pensou no cu da professora de inglês do sétimo ano, uma memória a que recorria em noites de insónia. Não resultou. Levantou-se.

 

Olhou-se ao espelho, meditabundo. “Mais dez anos bons”, ponderou. A calvície era inevitável, o rosto, cada vez mais encovado, perdia a sua distinta disposição e os olhos tinham perdido o viço há muito. Não havia nada a fazer. Barbeou-se com esmero.

 

Passeou pelo quarto com o revólver na mão. Reflectia sobre aquele pacificador pedaço de metal. Todas as suas inseguranças e problemas podiam acabar com gesto simples. Pum! Já foste, aqui jaz e tal. O barulho era de facto dispensável e a ideia de que alguém tivesse de catar-lhe a mioleira do chão também não lhe agradava. “Paciência um pouco de sujidade para alcançar a limpeza eterna”. Comprara a arma depois de ver um instrutivo filme do Van Damme; um homem nunca se deixa apanhar pelo inimigo – guarda-se sempre a última bala.

 

Abriu a malfadada porta do varandim para fumar. Da janela via-se uma tabacaria: paredes esverdeadas, jornais e moscas. No néon da tabacaria, um paraíso para muitos insectos, lia-se O GRANDE GATSBY em letras verdes; para Daniel o paraíso era um pouco mais acima.

 

A luz da grande literatura atraía os mosquitos e a luz da janela de Vânia atraía Daniel. Ele pensava que o calor era o móbil de toda esta agitação, uma noção errada como tantas outras. Era a luz. A luz rosicler da manhã de Abril não se diluía no amarelo sólido do quarto de Vânia.

 

Conhecia Vânia há mais de dez anos, mas nunca lhe tinha prestado atenção até ela se mudar para a casa à frente da sua. Espiava-lhe os movimentos mais simples: ela a regar as plantas, a ver televisão, a ler a comprar cigarros slim na tabacaria. A proximidade aumentava-lhe o encanto, a sua beleza era inconspícua, feita de pormenores que não se percebiam de passagem, careciam de metódica observação para lhe perceber as subtilezas.

 

Ela acordou. Daniel fechou a porta e alcançou uma câmara de filmar digital e uns binóculos de caça, que nunca usou para caçar mas que serviram vários propósitos furtivos. Preferiu a imagem pixelizada à alta definição predatória – era um romântico, no fundo.

 

Assim como se agita uma nova folha verde,

se estende e desenrola devagar,

abriu-se o corpo dela na frescura

e no impoluto vento da manhã.

 

A figura grácil de Vânia aparecia e desaparecia no seu ramerrão matinal; a luz cegava a câmara, deixando a lubrificação a cargo de alguns quadradinhos lúridos. Focou a câmara. Os braços, flácidos mas delicados, enquadravam perfeitamente um cu de porcelana chinesa, a verdadeira linha da beleza. Pegou na mão da matrona para envolver o seu pénis erecto – o suor dela e o líquido de Cowper dele fizeram o resto.

 

Guardou o nascimento de Vânia num disco rígido para nunca mais o ver; esta peculiar perversão vive mais da ansiedade do momento do que da reminiscência. Estava finalmente pronto para dormir.

 

O vento, perfumado de glicínias, fazia o seu robe de chambre adejar levemente. Foi até ao varandim fumar novamente. Vânia saiu para fumar e acenou-lhe. Daniel acenou-lhe duplamente com a mão e com o pénis ainda tumefacto. Ela desapareceu. De repente, viu tudo muito claramente, era tudo tão simples. A máquina do mundo, ímpar e impoluta, estava escancarada e esperava por ele.

 

E quando todas as folhas,

todos os amarantos

se perderem na perdida Creta

cessará toda a límpida necessidade

de figos, de mel

– de comparações.

 

[]

despesadiaria às 07:56
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