Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2015

 

X

 

As árvores pareciam distraídas no seu esplendor de Domingo. Decompostos dos bandos, iam e vinham pássaros, anelavam as garras nos galhos mais sinuosos, as penas a penderem no balanço da aragem. Altivas e impotentes, ei-las naquele clã, arvorando a sua causa vegetal, surpreendidas por alguém que se tinha aproximado: as raízes regadas por uma repentina pluviosidade. Nas franjas de sol que as ramagens deixam a descoberto, sobressai uma pequena navalha nas mãos de um Orlando, que furioso cismava uma teoria homicida. A estatura mediana, o esqueleto vergado pela picardia e o olhar enlouquecido para o objecto que se amparava, a medo, naquela infinitude de dedos provenientes de unhas inconclusas: a lâmina quase baça, ainda assim, um retrovisor que espelhava as memórias de desamor da noite passada. Ergue a cabeça, levanta o braço, espeta a ponta do canivete na casca. A dor é lascada à medida que a mão oscila freneticamente. Quando acabou, já o luar lhe rotulava a sanidade perdida. A árvore, sacudida do torpor dominical, revestia-se agora da literatura mais prosaica: «Angelica, pk me abandonas-te?»

 

gisandra

 

despesadiaria às 16:53
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