Sábado, 24 de Janeiro de 2015

...

 Curta

 

No verão, a Madalena pedia sempre o café cheio e um copo alto com duas pedras de gelo. Agarrava na chávena escaldante e espetava o mindinho anelado; depois vertia o café para dentro do copo num gesto rápido, mas não tão rápido que impedisse a fuga de parte do líquido. Algumas gotas agarravam-se à porcelana espessa da chávena, outras escorriam lentamente pelo copo abaixo até se unirem à mesa prateada. Aí, de mãos dadas formavam um cinto acastanhado em torno da base do copo. A Madalena levantava-o para ver a circunferência escura engordar, como se a forma tivesse sido aplicada ali por um carimbo saturado de tinta. Depois, tentava limpar o chiqueiro com os guardanapos de papel que tirava dos dispensadores com forma de garrafa de Compal: começava por tirar apenas um, abria-o e com ele cobria o rasto de café. Uma mancha nascia na zona central do guardanapo, devorando sofregamente o branco, quase chegando aos bordos azuis e ao exclamativo Obrigado pela preferência em dois dos lados do quadrado; Madalena tirava mais um guardanapo, desta feita emoldurado por um tom encarnado, desgastado, e com letras a condizer; seguia-se outro, e outro, e outros; empilhava-os até haver um que ficasse todo branco, orgulhoso, em cima dos irmãos emporcalhados, e sobre a superfície imaculada pousava finalmente o copo. Só nessa altura começava a beber o café, já os cubos de gelo se reduziam a tristes formas ovoides, quase indistinguíveis no líquido escuro.

Um dia disse-lhe que podia pedir simplesmente um café gelado. A sugestão foi recebida com um sorriso largo, daqueles que usava para mostrar o intervalo dos dentes da frente. Isso não faz sentido, respondeu. Olhando para a pilha de guardanapos entre nós, acabei por concordar.

 

S. White

despesadiaria às 19:20
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