Domingo, 25 de Janeiro de 2015

 

Antes de terminar o último ano da faculdade tomei a decisão de trabalhar num café durante o verão. Na verdade nem posso dizer que a tenha tomado, vim para aqui não por necessidade mas por insistência do meu pai, que achou que uma actividade durante estes meses seria útil para me formar o carácter. Passou entretanto um ano e meio e por cá tenho ficado, um risco que eu próprio antecipei e do qual informei a família nessa conversa ao jantar. Tendo vindo a confirmar-se, não foi pelas razões que suspeitava.

Sou tão bom a lavar pratos como a fazer cocktails ou a tirar um doppio ristretto com a consistência correcta (de óleo de motor), mas não foi a minha competência e devido reconhecimento que me convidaram a ficar. Também não foi a inércia que me obrigou a fazê-lo, a minha aposta inicial. Terminei entretanto a licenciatura e já tenho recebido os convites que se adivinhavam, tenho tudo o que é preciso para uma carreira sem enviar uma única candidatura. Mas cá estou. O que se passa é que comecei a contar as pessoas.

Não foi um processo imediato, inicialmente fazia por caracterizá-las, isto é, inventava-lhes uma vida ou procurava conhecê-las, sou um desses tipos de empregado com boa conversa, e temos um balcão extenso. Cedo passei de pessoas para grupos. O café está aberto desde cedo e fecha quando sair o último cliente, não poucas vezes depois da uma da manhã. Não vale a pena alongar-me nestas caracterizações, são o que se espera de um estabelecimento que não serve almoços ou jantares. A primeira leva traz gente que vai trabalhar e vem beber uma bica ou tomar pequeno-almoço; desempregados, estudantes, e vizinhos ao longo da manhã; casais de universitários durante a tarde, turistas perdidos ou atraídos por conselhos de recepcionistas de hostel ou escritores de Lonely Planets; e, um pouco antes do jantar e durante a noite, uma massa cada vez mais indistinta.

Numa dessas noites, sem nada de atípico, levantei a cabeça depois de esmagar quartos de lima em açúcar mascavado cristalino, e decidi contar as pessoas. Fui rápido, extraordinariamente rápido, oitenta e seis cabeças. Quis ir mais longe e abstraí-me da tentação de lhes dar contexto, como tinha feito até aí, mas individualizei ao extremo a multidão e consegui memorizar durante uns instantes cada um dos clientes. Não falo em ser capaz de os reconhecer (embora seja), o que fiz foi criar uma memória permanente de cada um deles, e ao fim de uns minutos estava pronto a reconstruir a sala. Continuei ao longo da noite, com cada pessoa que entrava ou saía, e facilmente os compartimentalizava entre os que já estavam e os que já estiveram. Não procurei fazer previsões, nem extrapolações, ou narrativas, penso que de um momento para o outro liguei a memória num modo estatístico impensável.

A massa deixou de o ser, senti-me Funes, capaz de olhar para uma árvore e lembrar e distinguir cada uma das suas folhas. Continuei até ao final da noite. Enquanto lavava copos e virava cadeiras reconstruí com facilidade toda a multidão que por ali tinha passado de forma minuciosa. Não se tratou sequer de reconstruir, era como abrir uma pasta de arquivo e o processo era imediato. É importante voltar a sublinhar que apesar de os ter distinguido e extraído da multidão um a um, não lhes dei mais contexto do que a um conjunto de números inteiros infinito, tornei-me não só imune como incapaz de julgamentos ou adivinhações.

Quando acordei na manhã seguinte, a memória de cada indivíduo continuava presente e imediata, acessível como a do nome da minha mãe ou do meu número de turma no quinto ano. E, claro, fiz o mesmo nesse dia e voltei a memorizar cada uma das pessoas que meteram pé no café, e assim tenho feito até hoje, mais de oito meses depois daquela noite. Temo bem que a minha vida se venha a resumir a esta tarefa, talvez para tragédia do meu pobre pai. Não sei dizer se consegui o oposto da formação de carácter que pretendia, se o anulei, ou se existia para ser formado.

 

Gouveia

despesadiaria às 20:37
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