Domingo, 11 de Maio de 2014

 

Dona Cândida

 

No fim das aulas íamos para sua casa. O tempo do colégio tinha acabado, a independência estava longe. Alguém tinha de nos fazer o almoço e afastar da rua. Não sei como a encontraram, os meus pais, não sei como deram com ela. Apenas nos disseram um dia: «A partir de hoje, no fim das aulas, vão directos para casa da dona Cândida.» E nós assim fazíamos.

Era uma senhora muito velha, solícita e digna, a dona Cândida. Tinha aquele gosto em ajudar, a infinita paciência das avós, a que aliava uma discreta mas adorável vaidade. Nunca a vi descomposta. Usava unhas postiças, pintava o cabelo. E até a racha na grossa lente direita parecia mais um toque de estilo do que o resultado de um acidente. Apenas me recordo de a ouvir queixar-se uma vez. «Dores na coluna, meu filho.» Nesse dia ficou pelo quarto e nós no pátio das traseiras, a atirar a bola contra o portão, a tentar molhar-nos um ao outro com a mangueira do pequeno jardim, a arreliar o cão da vizinha… Asneiras.

Muito ela nos mimou, a mim e à minha irmã. Um dia deixamos de ir lá. Não mais lá voltei. Penso que a minha irmã também não.

Ontem, ao fim da tarde, enquanto passeava pela cidade, veio-me à memória a dona Cândida, e decidi ir rever a casa. Tinham-na destruído. Totalmente. O próprio muro que nos afastava da rua estava por ali caído, esfarelado… Estão a construir um prédio. Outro. Quatro andares. Tudo muda, bem sei. O que nos era afeiçoado talvez apenas o fosse à custa de um lugar querido a alguém. E ainda primeiro que a casa foi com certeza a dona, o que é muito pior. Mas... que acre gosto!... E que golpe na memória! A minha irmã vive longe, os meus pais já cá não estão. Em breve eu mesmo me irei embora… Tudo então se acabará.

A minha vida não está pior hoje do que já esteve. Ao fim-de-semana até bem que me divirto, com novos e velhos camaradas. Na verdade, vivo uma autêntica Primavera. Colho frutos que não me lembro de ter plantado... Espevitei a sorte, o olhar sofrido caiu por si. Mas destas mágoas doces ninguém escapa. Fica um vazio. Dói.

Precisava de contar quem foi a dona Cândida. Antes que eu parta também.

 

pmramires

despesadiaria às 01:54
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