Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2015

 

XI

 

Eram sete horas da tarde, o barco tinha acabado de atracar. Sai aos empurrões por entre a chusma, não reconhecia a urgência que se lhe impunha. A paragem estava à pinha, um cão cirandava por ali à cata de um osso, servil a todos e a ninguém. Não quis esperar, apressava cada vez mais o passo (e)levando o peso dos muitos dias nas pernas. O autocarro que subia a rua acabava de passar por ela. Era sempre assim, o destino a dizer-lhe que tomava a decisão errada. Pelo caminho, um prédio em obras chama-lhe a atenção. Andaimes revestidos por uma rede através da qual se vislumbrava uma composição de azulejos a preencher a parede da frente. Inclina a cabeça para dentro de um buraco aparentemente invisível. Todo o seu corpo é sorvido de imediato pela imanização que vinha de dentro. Um silêncio mortal calava a atmosfera. No meio de um lago, sentado num barco, um jovem acariciava as penas plúmbeas de uma pomba. Afago atrás de afago, o animal semicerrava os olhos, adormecia o sentido do voo e acordava o mistério da queda. O esqueleto canídeo ergue-se no precipício da fome e rompe por dentro daquele lugar insuspeito como uma seta inflamada, uma pasta de sangue e pêlos a manchar aquele cenário idílico. Desvalida, a mulher dá alguns passos para trás sem se aperceber do desvio da entrada enciclopédica do workshop das cinco da tarde.

 

gisandra

despesadiaria às 23:18
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