Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2015

 

Vivenda Dang

 

Na tentativa de cortar caminho até ao tribunal, meti-me por uma velha rampa de alcatrão esburacado; uma rua bem conhecida do meu passado de criança esférica, onde, apesar da inclinação obscena, há casas de um lado e do outro: vivendas geminadas, adegas clandestinas, garagens recheadas de ancinhos desdentados; uma vizinhança apodrecida, coberta por um manto oxidado de esquecimento e artroses várias. É uma daquelas ruas que atestam o espírito confuso do lugarejo que aos poucos se habitua ao estatuto de subúrbio. As vidraças das marquises estremecem ante o bulício da via rápida, mas a identidade do lar persiste (e as coelheiras fedem). As casas têm nomes: no muro da frente de cada vivenda existe uma placa em azulejo que, entre rabiscos de guardanapo, batiza o imóvel. O costume define-se a si próprio e repete-se, qual novena moída entre gengivas de piorreia. Estiveram sempre ali, os apelidos de árvores de fruta; por isso, nunca reparei nesses nomes de família, nomes de sonhos, nomes de piadas privadas e muito queridas; nomes pintados a letra azul serifada, orgulhosos no seu pequeno mural dividido à caixa de ovos. Mas talvez hoje tivesse acordado com a disposição para reparar nos muros, nas pedras soltas, nas folhas pálidas das iúcas desidratadas; talvez o tédio das férias de juntasse ao abandono emocional que me levou a calçar um par muito gasto de Chuck Taylors; ou talvez a matemática das associações simples me recordasse dos anos passados desde a última vez que desci aquela rua.

No cimo da ladeira, lugar onde se cruzam outras duas ruas que por pouco não a superam em inclinação, os meus olhos agarraram num desses retábulos e quase o arrancaram. Dizia: Vivenda Dang. Parei. A fachada encardida do tribunal não estava à espera que eu lhe cortasse o fio correto, nem o meu registo criminal deixaria de poder ser usado para limpar o cu a um bebé se eu me atrasasse. Importava mais fruir o nascimento daquela memória. Há semanas que procurava a oportunidade de criar algo parecido a isto: uma memória à qual fosse possível dizer adeus, como um ponto que fixamos distraidamente antes do comboio partir apenas para ter a consciência de que o vamos deixar para sempre — e é definitivo, porque mesmo que voltemos a passar pela mesma estação, o ponto não se anuncia e nós não sabemos como o procurar; o tipo de ponto que fecha todas as trajetórias.

Tudo o resto — as outras casas, as rampas de cimento por onde se acede às garagens, os caixotes do lixo diagonalizados, com calços nas rodas — emanava uma familiaridade distante e insuportável. Em frente à Vivenda Dang está uma moradia caiada; em frente à Vivenda Dang estava eu, sabendo-me capaz de descrever essa moradia com precisão digital. Era lá que costumava passar as tardes quando ainda usava clipes coloridos na bainha das calças. Abria-me a porta uma miúda franzina; as pontas dos cabelos batiam-lhe no queixo, o processo estilóide do rádio mais parecia uma agulha. Estudou comigo desde a primária até ao nono ano e, como todos os meus colegas, dedicava-me pouco mais do que uma tolerância passiva. Isso cumpria com a minha noção de amizade e eu era-lhe muito grata por me deixar subir até às águas-furtadas que lhe serviam de quarto. Lá havia um modem omnipotente, que rapidamente se transformava num calorífero de qualidades igualmente impressionantes; havia pósteres do João Moutinho; havia uma batida interventiva, vozes duras e pescoços a acompanhá-las; e eu fundia-me na colcha de patchwork e observava a aeróbica dos dedos da rapariga nas salas de chat, a reverberação das colunas da aparelhagem, a cavaqueira entre amigos — enquanto um gato chamado Billy pisava as minhas coxas com as unhas para me lembrar de que eu existia. Depois, lanchávamos ovos mexidos com muita margarina.

Não consigo despedir-me voluntariamente deste tipo de memória. Foi nela que vi pornografia pela primeira vez. Esse ponto é nada mais além de uma experiência adolescente ordinária, mas não se desvanecerá numa mancha achatada pela velocidade de afastamento; estará sempre ali, e a cena repetir-se-á eternamente, uma loura e um tipo cheio de tatuagens num estaleiro coberto pelas formigas do satélite. Por isso, eu precisava da Vivenda Dang. Precisava de me querer lembrar dela para depois decidir esquecer-me dela. As coordenadas eram as ideais: Dang em nada se parecia com os comuns apelidos, ou com o sonho rebocado que estreia uma família no proprietariado; Dang trazia uma novidade capaz de superar a heresia histórica de cravar um metálico Lar Londrino no pequeno prédio da base da ladeira — a bisavó demente dos prédios do outro lado da vila. Era uma fantasia tricolor: vermelho-tijoleira, verde-guacamole, mármore-barato; linhas direitas, obedecendo à corrente estilística do caixote de eletrodoméstico (modelo frigorífico); telhado-tipo com empala-pardais de bico rombo, enfeitado por tiras ondulantes de verdete-também-ele-tipo; quintal onde cresciam felizes os limoeiros prenhes e as piteiras de pontas secas, prontas a colher para usar nos bordados. Na folga entre a chapa negra do portão e o chão calcetado viam-se quatro patas de cão. Um Toyota Starlet amarelo — o mesmo tom amarelo das botinhas de bebé tricotadas antes de se saber o sexo da criança — espreitava de dentro de uma boca escura, com prateleiras cariadas e garrafões de conteúdo misterioso.

Estive ali, no topo da ladeira, empoleirada numa janela de cinco minutos por dois raios de sol compridos e cortinhas de linho marfim. Ninguém passou, e eu soube que seria muito fácil esquecer-me disto — vai ser muito fácil esquecer-me disto assim que queimar esta folha. As pessoas têm problemas com as despedidas porque não sabem por onde começar, ficam encostadas à travessa dos croquetes até não haver vestígio das miniaturas de coco.

Segui para o tribunal. Um pato nadava no quadrado em frente às portas giratórias. Acenei-lhe um adeus.

 

S. White

despesadiaria às 09:00
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