Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2015

 

De quem?

 

O meu cão é um podengo de pêlo curto. Pêlo louro, diria, embora não esteja certo que se possa aplicar estas terminologias a cães. O meu cão é uma cadela, mas é complicado começar a apresentação de um animal de estimação pelo sexo, é mais fácil introduzir antes a espécie. Noto agora que mesmo depois da espécie, e antes do sexo, senti-me impelido a distinguir-lhe a raça e cor do pêlo (o tamanho do pêlo faz parte da caracterização da raça, de outra forma penso que não a teria discriminado). A minha cadela chegou a minha casa com poucos meses, não sei precisar quantos, mas a vizinha que me bateu à porta com o animal nos braços disse duas coisas antes de me deixar falar: «foi abandonada» e, «ainda é bebé», uma informação e uma tirada de vendas, portanto. Quando perguntei o nome da bebé, disse -me «Josefina», e eu pensei «safa!» mas respondi «compreendo». A minha vizinha era vegetariana e, logo, bem treinada num discurso de transferência de culpa que fui obrigado a interromper para lhe dizer que ficava com a cadela. Fechei a porta e não nos voltámos a falar.

A minha cadela tornou-se bastante conhecida na rua, porque é bonita - assim me garantem as minhas vizinhas que também passeiam cães - e porque é muito amigável com as pessoas. Histeria mútua, pareceu-me. Por me ter sentido pressionado a alterar rapidamente o nome, chamei Hobbes à minha cadela, e tentei convencer as pessoas de que a homenagem que se prestava não era ao amigo de Calvin, o pequeno herói da banda desenhada, mas ao próprio Thomas Hobbes, com quem a minha cadela parecia partilhar um estado de constante miúfa da realidade. O facto da minha cadela ser uma menina também vinha à baila na contra-argumentação a que normalmente me sujeitavam, mas eu avançava que a esposa do Thomas Hobbes devia chamar-se Sr.ª Hobbes, bem como a sua mãe, e eventuais filhas ou esposas de eventuais filhos, pelo que não era a primeira vez que Hobbes tinha sido aplicado a uma entidade feminina. De qualquer forma, a vizinhança entendeu, a bem das dignidades do animal e de quem o chamava, que o nome seria adaptado a Lopes, forma como passou a ser conhecida na rua.

Alguns anos mais tarde li numa revista cujos artigos eram todos em forma de lista, que um dos sinais de inteligência de um cão é o número de palavras ou expressões que reconhece, e que acima de dez estamos perante um animal superior. Pelas minhas contas a minha cadela entendia Hobbes, não, rua, banho, papinha, aqui, que é esta merda?!, senta, e dá a patinha. Nove. Pareceu-me que a culpa era minha por não ter sentido necessidade de esticar a comunicação para lá destas incidências, mas como não queria privar a minha cadela de uma educação completa fiz um esforço por conseguir uma décima palavra. Consegui que reagisse a primeiro-ministro: sempre que dizia «olha, Hobbes, é o primeiro-ministro», ela soltava um latido único e olhava para o televisor. Para estar certo de que não era o meu tom de voz que lhe provocava esta reacção específica, tentei algumas vezes dizer «olha, Hobbes, é o procurador-geral da república», ou «olha, Hobbes, é o cardeal patriarca» e nesses casos apenas olhava para mim em silêncio e voltava a deitar a cabecita logo de seguida.

A minha cadela não gostava de outras cadelas, o que se foi tornando um problema sério à medida que foi ganhando confiança no seu porte de cão de caça. Se as cadelas fossem maiores do que ela, rosnava baixinho e de longe, à cautela. Se fossem mais pequenas perseguia-as e subjugava-as, até eu finalmente conseguir intervir. Thomas Hobbes deve ter dado voltas no túmulo. Aos cães (e para com eles) era indiferente. Até ao período do cio, altura em que a rua por debaixo da minha varanda se enchia da cachorrada local a fazer-lhe a corte como num filme da Disney. Quando eu saía, mesmo que sozinho e após longo e diligente banho, o cheiro que se me colava provocava os cães das redondezas que me seguiam a alguma distância mas com perserverança. Entendiam que eu não era uma cadela (dominavam com certeza mais de dez palavras, também) mas vinham comigo hipnotizados para todo o lado, como num filme do Chaplin. Durante cerca de quarenta dias por ano os funcionários dos autocarros e do metro, bem como os meus colegas de serviço, foram-se habituando a ver-me na companhia de meia dúzia de animais arfantes.

Há cerca de um ano enamorei-me de uma moça que conheci através de amigos comuns e marcámos data para casamento. Na semana passada a minha noiva fez saber que não temos condições para ter uma cadela na casa nova, pelo que é com mágoa no coração que estou a tratar das diligências para me livrar dela.

 

Gouveia

despesadiaria às 16:00
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