Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2015

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(micções)

 

O armário do quarto dava passagem para uma casa de banho, o que, por si, já é sinistro. Sobretudo se, dentro do armário, no recanto mais escuro, estiver o cadáver de uma prostituta embrulhada em celofane. Encontrei-o há umas semanas, quando fui procurar um volume de Pausânias nas várias caixas de livros que o professor Urbano lá guardava. Desde Setembro que ajudava o professor na revisão final e na formatação do texto da sua tradução da Naturalis Historia, de Plínio, o Velho. Todos os Sábados, pelas oito horas da manhã, nem mais nem menos, comparecia no terceiro andar direito do número 21 da Rua X. O trabalho era de imediato iniciado, começando o professor por me ditar dez páginas manuscritas, que eu batia no teclado do computador. De seguida eram impressas, e passava-mos à revisão minuciosa de cada parágrafo. Pelas dez e trinta o professor interrompia os trabalhos. Uma pausa para o chá de hortelã, que comecei a apreciar, e bolachas de canela. Nem durante este período o professor aliviava o seu semblante austero e rígido. As palavras que trocava-mos eram poucas e formais, a mais das vezes sobre o estado do tempo e a saúde dos familiares (em particular dos meus, pois o professor era solteiro, e não lhe conhecia parentada próxima), quando não sobre o trabalho em curso. Neste Sábado as coisas não se passaram de modo diferente. Contudo, um desejo irresistível e mórbido de ir ver a prostituta morta no armário abateu-se sobre mim. Pedi licença ao professor para ir à casa de banho, que prontamente me foi concedida (juntamente com a indicação de que a casa de banho do corredor não estava operacional). Assim fiz. Entrei, procurando afastar os fatos do professor, e segui direito ao recanto mais obscuro do armário. Lá estava ela, a prostituta. Ao lado, porém, parecia estar outro corpo. Aproximei-me e vi a Dona Lurdes, a empregada de limpeza do professor Urbano. Saí, fechei a porta, e voltei para junto do professor. Terminei o meu chá, e comi mais duas bolachinhas.

 

nev

despesadiaria às 14:35
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