Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2015

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Vou agora a casa da Rosalina buscar o pão. Não é que tenha fome, ou sequer que a Rosalina tenha pão, mas qualquer desculpa serve para sair desta casa de cinco crianças - eu acho que só fiz três - e uma mulher que já não aquela que eu escolhi. De maneiras que venha o pão.  Se a Rosalina estiver de bom humor e o marido com o camião lá para os Pirenéus, mais coisas hão-de acontecer.

Este cabrão deve achar que eu sou parva. A Rosalina deve achar que eu sou parva. Sai-me de casa às nove para andar 150 metros e voltar com o pão às onze e o cabelo desgrenhado. Tanto faz, já não me interessa muito. Soubesse ele que só quatro dos filhos são dele e talvez o assunto merecesse discussão. Já devia ter ido embora, ou ele já deveria ter ido embora, sei lá que merda de inércia tomou conta de mim, eu que tinha todos os rapazes à perna. Como deixei que isto acontecesse?

Para a semana faço 18 anos. Até que enfim. Já combinei com o primo Abílio, Marselha, que seja. O trabalho pode ser duro mas eu tenho de sair desta casa. Não sei que espécie de teatro é este que os meus pais montaram, nem a quem se destina. Entre o silêncio sepulcral e a guerra civil, não sei o que é melhor. Vou ter com o padrinho. Ele sempre me tratou bem, melhor até que aos meus irmãos, nunca percebi porquê.

Desta vez não volto. Estou farto de andar com o camião para traz e diante. Fico com a Stephanie, mando uma carta à Rosalina a explicar tudo. Já chega de fingimento.

DoVale

despesadiaria às 11:04
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