Sábado, 14 de Fevereiro de 2015

 

Imperialogia

 

O funeral foi a pior parte. Um dever que logo se transformou em alucinação coletiva (e talvez tenha sido melhor assim). Hula hoops imaginários rodavam em torno dos braços moles do pároco da vila: nas suas trajetórias geminadas víamos o infinito; fungávamos a cada volta completa, mas não era de tristeza — ou, pelo menos, não na forma a que nos habituáramos a senti-la. Depois, concentrávamo-nos no ondular das chamas em torno do altar e, num piscar de olhos, todos os naperons ardiam em línguas que subiam até ao teto abobadado, que troçavam de nós e de tudo; até nos fixarmos na personagem que falava atrás do púlpito. O homem parecia feito de cera e as linhas que uniam as narinas à face inferior do malar acentuavam a gravidade do discurso. Dissertava sobre a n-ésima dimensão do pós-vida, usava os indicadores para apontar as páginas amarelecidas que tinha na sua frente. O séquito de beatas grisalhas baloiçava como espigas ao vento enquanto recebia o sermão — se o tom subisse, estremeciam consoladas, uma manta era-lhes colocada sobre os ombros. Sentavam-se imediatamente atrás da família e, pelo cintilar dos olhos nublados quando torciam o pescoço, julgavam protegê-la de nós; de nós, que víramos o grande plano do Senhor nas formas concêntricas de uma poça incomodada. Eu apertava as mãos da Inês nas minhas sempre que as apanhava a espreitar.

Aquelas megeras, agrilhoadas aos bancos corridos pelos seus rosários. A cara do menino podia ter aterrado em qualquer lado. Os médicos disseram-no, e durante toda essa semana a mensagem viajara em ecos, fizera vibrar balcões e enriçar mises: se o rapaz tivesse tido tempo para dar mais dois passos, era como se tivesse adormecido de bruços sobre o alcatrão; se o rapaz tivesse tido tempo de chegar a casa… A diferença estava apenas na lama; a lama que escorria pelo pescoço quando o virámos; a lama que nos sujou as mãos. O rasto brilhante de um verme.

Alguns de nós seguiram o carro funerário até ao cemitério. Eu não tive coragem. Fiquei sentado na escadaria da igreja, a apanhar sol. Estava um dia maravilhoso, quente e pintado de amarelo. A Inês fez-me companhia: encaixou-se numa cova do degrau imediatamente abaixo do meu. Curvou-se, apoiando o queixo nas mãos e os cotovelos nos joelhos, sem cuidar que a cintura das calças escorregara — e muito menos que eu via outros infinitos no espaço escuro acima da presilha de ganga. A negligência com que as duas nádegas brancas se mostravam era enternecedora. Contemplei-as no longo silêncio que se estendeu até a Inês inclinar timidamente o pescoço na minha direção. Um silêncio simples. Foi como encontrar um banco no topo de uma subida ingreme, sentar-me e tentar contar as janelas dos prédios no fundo do vale; e o sol caía, os vidros fundiam-se numa massa alaranjada, acastanhada, e por fim negra. Estava cansado, tão cansado que demorei algum tempo a responder-lhe ao gesto. Não tinha vergonha de ser apanhado a espiar-lhe o rabo, mas sabia que ela se preparava para me confidenciar algo e que queria que eu olhasse bem para as palavras.

— Eu sabia que aquilo ia acontecer. Eu vi. — Fez uma pausa, mudou os olhos do meu nariz para os meus pés. — Uma forma escura, feia, na espuma. A poça. E vi que ele já estaria morto quando lá chegasse. À poça.

Achei que ela estava a gozar comigo e que devíamos voltar para casa. Não havia mais nada para nós ali. O verme partira.

— Tens o rego do cu à mostra — respondi, enquanto me levantava.

E deixei-a de pé nas escadas, com trança tombada, a puxar as calças para cima, salgando os sapatos pela última vez.

As velhas desculparam-nos quando os alperces começaram a cair porque, como era costume todos os anos, precisavam que eles caíssem para os nosso braços em vez de caírem para o chão — manias do catolicismo. Nessa altura, por recomendação dos professores, das revistas e das rubricas dos programas da tarde, quiseram ensinar-nos a lidar com a perda. Para alguns, a aventura durou apenas uma hora: o suficiente para inventar os sentimentos de revolta que se encaixavam no guião e justificar o preço total da consulta; mas a Inês, por exemplo, tocou-me à campainha numa tarde de Setembro para dizer que tinha aprendido a respirar e que ia estudar para o Porto.

Eu não sabia que a pequena lição sobre o movimento da caixa torácica

(— Olha: inspiiiiiiiiiiiiiira… e… uuuuuuuuffffffffffffff. Percebes? Reparaste no meu peito? — Reparara em duas laranjas ampliadas através de uma lupa de arame, espuma e algodão. — No movimento? — Para cima, tentando escapar das copas; para baixo, encolhendo até deixar um espaço vazio que a camisola cobria como um toldo. — É tão importante saber respirar.

— É tão importante estar vivo.)

era uma despedida. Passaram-se anos sem que ouvisse sequer falar dela; nos primeiros tempos, recordava-a nas escadas da igreja, aos saltinhos, procurando encaixar-se melhor nas calças; mas depois dava por mim a revisitar todo o funeral, a ouvir de novo o galope violento dos soluços, o choro dos vitrais coloridos. Desisti de pensar no quão bonita a Inês estava nesse dia, com o cabelo preso numa trança gorda onde toda a vida se escondia, tentando passar despercebida.

Reencontrei-a há dias; num bar, a olhar para uma imperial de cristal e a sorrir.

 

S. White

despesadiaria às 19:06
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