Segunda-feira, 12 de Maio de 2014

 

Ficar velha assusta-me tanto que já tenho a minha morte planeada.

 

A minha avó adoptou a Dona Esmeraldina como comadre emprestada quando se zangou com a comadre verdadeira, se é que tais coisas existem. Trata-a assim mesmo, por comadre emprestada. Conhecem-se há mais de quarenta anos e os lanches demorados, chá e torradinhas ora na casa de uma, ora na casa da outra, duraram até as pernas o deixarem. Agora, só a minha avó não verga as costas sob o peso da idade. É ela que todos os Domingos vai a casa da amiga para trocar as novidades do alheio por uma madalena, depois de lavar a roupa no tanque de plástico que lhe comprámos por nunca se ter habituado à máquina de lavar. Mas a semana tem mais dias e a Dona Esmeraldina vive na solidão do nojo. Tenho uma vaga memória do seu marido, o Zénita. Do terraço da casa dos meus avós, via-o passar numa carroça puxada por um cavalo cinzento. Faltavam-lhe dois dedos numa das mãos. Depois, faltou-lhe o coração e ficou a Dona Esmeraldina sozinha, a colecionar roupa preta e a telefonar para casa das amigas à procura de companhia.

Sei que a Dona Esmeraldina me conhece desde sempre, que disse as primeiras palavras para a divertir e que os meus primeiros passos a encheram de orgulho. Como todas as amigas da minha avó, decerto houve uma altura em que odiava a forma como me apertava as bochechas ou se ria dos refegos nas minhas pernas gordas. Os anos passaram. A Dona Esmeraldina deixou de ter uma cara. Apenas lhe conheço a voz, das vezes em que lhe atendo o telefone. O timbre é frágil e treme como quem pede desculpa a medo. Olá, Dona Esmeraldina, como vai?, digo eu, entretenho a velha com cortesia, falamos um pouco sobre o tempo e a saúde, até eu encontrar a minha avó debruçada sobre o tanque da roupa ou a passar vistoria à porcelana chinesa da sala. O diálogo acaba por se estender para lá do que a educação manda. Às vezes, a minha avó cruza os braços e bate com o pé impaciente no chão, um metrónomo que marca o compasso da conversa que nunca mais acaba. Os seus olhos ordenam que lh e passe o telefone, o alguidar da roupa deixa adivinhar que a tarefa foi interrompida em hora pouco oportuna. É difícil terminar o debate sobre a dor ciática quando aquela voz se agarra a mim com a sofreguidão de uma lapa que sentiu na concha a promessa de uma faca.

A Dona Esmeraldina tem por mim uma admiração enorme, segundo conta a minha avó. Fala de mim a toda a gente e diz a quem a quiser ouvir que gostava de me ter como neta porque sou muito simpática e educada. Como ela me vê, não sei. O que lhe sou na realidade é a mesinha em que se apoia a custo, o naperon encardido no topo, o telefone de disco que tosse uma voz jovem, o desespero da solidão abraçado a um meato de conversa. A pobre velha não sabe que sou feita de matéria mais negra que as suas vestes: tem aquela desesperança que cega e nos faz amar a sombra de tudo o que existe. Os padrões listrados da difração da luz sob uma porta. O cheiro das folhas de eucalipto jovens a brotar no campo, entre as bermas pejadas de cuquinhos e alfavaca de cobra. Ou a minha voz de cuidado, para levar no peito e aquecer a solidão. A velhice é uma infância muito triste, penso eu, ao passar o telefone à minha avó num arrepio.

 

S. White

despesadiaria às 10:00
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014