Domingo, 15 de Fevereiro de 2015

...

     um prejuízo do tamanho da Mónica - (14)

 

     Eram quase nove quando chegamos. Estava a pensar que não me tinha preparado para isso. Sabia que Bielo tinha uma Glock debaixo do banco. Mas ele não quis entrar com ela.
     – Vamos ter que esfolar esse gato de outro jeito – ele disse.
    Então descemos do carro e andamos ao lado da grade o pedaço que faltava do estacionamento. Não havia chovido, mas o chão estava molhado como se o tivessem lavado. Passamos pelo luminoso do Uncle Ben’s e diminuímos o passo, tentando decidir o que fazer no caso de estarmos fodidos. Parecíamos dois idiotas que não sabiam o que procurar. Desviamos de alguns carros, tentando demonstrar que tínhamos um propósito, como se soubéssemos o que estávamos a fazer. Um velho com cara de merda terminou de se enfiar na vaga à nossa frente e continuou dentro do carro, a falar sozinho bem devagar, como se fosse dormir. Tínhamos às costas outro carro a subir a rampa na direção das vagas cobertas.
     Paramos na calçada. Ficamos escutando o ruído da bola de basquete a bater no chão de madeira da quadra ao lado. Depois atravessamos a rua. Eu disse que gostava do Álamo, um edifício de esquina que parecia a Torre Eiffel cortada ao meio. Gostava do jeito que eles iluminavam o terraço. Bielo disse que nunca prestara atenção.
     Mais adiante passamos por um gajo a soldar um portão. Bielo perguntou sobre o armazém Eldorado. O gajo apagou o maçarico, levantou os óculos e disse: “Aquele ali, com a porta pintada de amarelo na parte de cima.”
     O prédio era todo de tijolos, com apenas dois andares. Subimos os degraus. Bielo falou depois que quase mudou de ideia parado em frente ao quadrado com o nome Depósito Eldorado esculpido em pedra na fachada do prédio. Mas aí já estava batendo e era muito tarde para recuar.
     Um sininho tocou quando abriram a porta, e por trás do balcão de fórmica a primeira coisa que vi foi um espelho grande rodeado de lâmpadas amarelas. Perto do corredor estava uma dessas mesas de copa, com rodinhas, empurrada para o lado. E mais para o canto, as cadeiras eram como bancos de parque, ao longo da parede. Uma espécie de atendente estava a olhar para a parte de cima da parede. Ele nem se mexeu. Uma das suas mãos estava em cima da braguilha, como se estivesse prestes a tirar aquilo para fora e urinar. Estava na verdade segurando uma 45 niquelada, sem apontá-la para ninguém.
     Esfreguei bem os sapatos no capacho felpudo para ganhar tempo e olhar em volta. Havia um monitor de TV montado no alto da parede, virado para baixo. Na tela aparecia alternadamente a imagem em preto e branco do estacionamento e da rua.
     O preto que abrira a porta nos deu as costas e, atravessando a sala na direção do corredor, disse “por aqui”. Fiquei a olhar aquele cabelo trançado e penteado com força para trás. Depois a coleção de canecas de cerveja na prateleira, alguns bichos de madeira entalhada pendurados na parede. Tivemos de abaixar um pouco a cabeça para descer uma pequena escada.
     Ali estavam os dois, na parte dos fundos. Tisto sentado numa cadeira de barbearia, parecendo um porquinho-da-índia. Na outra cadeira, um gajo grande com um jaquetão de marinheiro, botando uma touca que descia ajustado pela sua testa. Ambos falavam e davam risinhos ao mesmo tempo. O cheiro denunciava uma pintura recente, talvez uma tentativa de deixar o lugar mais apresentável.
     Na direita tinha caixas de papelão empilhadas contra a parede. Na esquerda, ao lado de plantas de plásticos cobertas de poeira, havia um banco comprido de madeira adaptado em aparelho de ginástica e embaixo dele estavam dois galos de briga em gaiolas de arame, um deles com as pernas raspadas, muito machucado.
     O gajo que abriu a porta, um crioulo com uma toalha sobre os ombros, sem nada por baixo, voltou a bater no saco de areia que estava pendurado no centro da sala.
     – Ei Bielo – disse Tisto, ainda a rir e a apontar para o crioulo – olha só pra essas pernas. Se não tens pernas assim, não deves nem entrar no ringue, meu.
     Bielo olhou para o negro a menear o corpo, esquivando, jabeando com as mãos protegidas com gaze. Depois olhou de novo para Tisto, ali sentado como a porra de um ursinho de peluche, com aquele cabelo liso riscado no meio.
     Tisto continuou a olhar, como se estivesse a achar muita piada naquilo, depois se virou para o lado, para o gajo que levantou, tirou o jaquetão e sentou outra vez. Depois ele voltou a olhar o preto e disse:
     – Então, Bielo. O que vai ser?
     – Estou com um probleminha.
     – Senta o rabo aí na cadeira e me dá um motivo pra me importar com isso, meu.
     – Meu amigo aqui quer se livrar de vinte e cinco quilos. Eu disse que talvez possas poupar ele desse trabalho.
     Um outro crioulo abriu a porta do lado e sem soltar a maçaneta disse:
     – Inês não pára de ligar.
    – Manda ela rodar a bolsinha. Mas que merda! Estamos divorciados há quatro anos e essa vaca ainda quer que eu a sustente.
     Os pés do gajo nem tocavam o chão. Ele resmungou mais um pouco e depois literalmente saltou da cadeira; foi até onde uma iluminação laranja sem brilho mostrava o corredor. Fomos atrás. Dobramos à direita. Vimos Tisto tentar girar a maçaneta e depois a tirar um punhado de chaves numa argola do bolso do casaco e a esperar o crioulo passar por ele, espremido no corredor estreito, para abrir a porta.
     Tentei caminhar em silêncio sobre o chão forrado de linóleo. O lugar tinha cheiro de mofo. A única luz, uma lâmpada de 50 watts, iluminava a pia, onde estavam pratos sujos, uma caixa de leite e um pacote de pão aberto.
     Tisto olhou para a porta e depois virou na direção de Bielo:
     – Posso dar toda a ajuda que precisar. Mas não quero surpresas. De onde veio?
     – Que importância tem? – disse Bielo – Estamos interessados em saber é pra onde vai.
     – Olha, meu, se estamos aqui a falar dos vinte e cinco quilos do Saviano é melhor irem vender essa merda no Pólo Norte.
     Bielo encolheu os ombros com mais indiferença do que a que sentia. Ia falar alguma coisa, mas ouviu a descarga da retrete e parou. Olhou para a porta fechada que levava à casa de banho. Viu quando um tipo ossudo saiu lá de dentro a afivelar o cinto. O gajo usou o pé para tirar a porta da casa de banho do caminho. Vestia uma camisa floreada de mangas curtas. E, apesar da luz fraca, pude ver que tinha uma tatuagem no braço esquerdo dele – alguma coisa em preto e vermelho – mas não quis me esforçar para saber o que era.
     – Olha, Bielo, eu vou dizer o que precisas saber e o que omitir não irá prejudicá-lo.
     Tisto estava a agir como uma criança que sabe um segredo, louco para contar, mas querendo que alguém perguntasse primeiro.
     – Sabe onde se encontra gente assim como ele? – Tisto perguntou, a apontar para o gajo. –Nas recepções do departamento de finanças da narcótico.
     Depois ficou a esperar. Bielo devia perguntar o que ele andava a fazer em recepções de finanças da narcótico, mas não se deu ao trabalho.
     – Quando é que ficamos amigos deles, Bielo? Queres saber?
     O telefone tocou. Tisto atendeu, a apontar para uma cadeira com a outra mão. Bielo bateu o nó do indicador sobre uma escrivaninha vazia em frente ao sofá e continuou de pé.
     – Quer ir ao Dome? – ele disse.
     – Agora já estamos aqui.
     – É, agora já estamos aqui – ele repetiu.
     Quando o preto entrou, vestindo a t-shirt, o gajo da tatuagem virou o suficiente para ver a sala toda. Dando dois passos para trás, tudo o que desejava era manter o Bielo e eu juntos dentro do seu campo de visão. Tisto tampou o bocal do telefone um instante, dizendo para ele enquanto batia no copo: – Porque não serves mais um com aquelas azeitonas.
     Andei até o sofá, estava cansado de ficar de pé. Bielo continuava lá parado, a tentar avaliar o que era mais importante, como se estivesse se dando uma escolha.
     O gajo veio pelo balcão com o martini e o colocou no guardanapo na frente de Tisto. Tisto desligou. Tomou um gole do martini, pôs uma azeitona na boca, mastigou-a algumas vezes e depois tomou outro gole.
     – Era o Saviano – ele disse. Depois fez uma pausa batendo no copo. – Por que é que não repetes a dose?
     O gajo serviu rapidamente.
     – Quer mais gelo?
    – Não, assim está bom – virou a cabeça e continuou. – Percebes que tens um problema, Bielo, e que podes querer dá-lo a uma pessoa em posição de te prestar um favor. Afinal, do que é que o Calucho morreu?
     – Do que quer que tenha sido não vais te contagiar.
     – Muito bem, vamos bater em algumas portas.
     Bielo franziu a testa, revirou os olhos, como se tentasse fazer sua memória funcionar.
    – Escuta só isto, Tisto: era difícil pensar naquele tipo como homem de negócios. Tudo o que ele sabia sobre cocaína era cheirá-la. Então qual é o problema?
     Tisto, depois de colocar seu martini sobre a mesa, puxar uma cadeira e sentar-se, perguntou:
     – Já acabou?
     – Ora, Tisto, que merda.
     Tisto olhou para o gajo ossudo:
    – Conta pra ele o que é que fazes.
    – Eu faço companhia às pessoas que precisam – disse ele, desviando os olhos de Bielo para o sofá onde eu estava.
    – Ah, é? Agora diz pra mim porque é que preciso perceber o que tu fazes?
    – Porque eu vou acompanhar o teu amigo ali. Isso tem um significado pra ti, não tem?

 

    Peor

despesadiaria às 03:41
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014