Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2015

...

     um prejuízo do tamanho da Mónica - (15)

 

     Não trocamos nenhuma palavra. O magrela ao volante e o crioulo no banco de trás, ainda com a gaze enrolada num dos punhos.
     Fiquei a imaginar se Pelon não se borraria quando visse aqueles gajos.
     Um carro da polícia passou por nós com a sirene aberta, as luzes do teto a piscar. O gajo mantinha os olhos no tráfego à frente, por cima do capô vermelho, a franzir os olhos na claridade dos faróis que subiam a Heron Campos.
      – Então, – ele disse – vais me contar ou manter em segredo?
     Eu não respondi, mas olhei para ele.
     – Pareces bastante calmo sobre isso tudo. O que é que tem na mochila?
     – Dizes a tua mulher o que fazes? – perguntei.
    – O que eu faço? Queres dizer tudo? Qual é? Achas que eu quero levar um tiro com meu próprio revólver?
    O crioulo estava a desenrolar a gaze do punho, desinteressado, quando escutou o outro dizer:
    – Ei, escurinho, achas que o grandão, o Tisto, tem mais motivos do que nós para ficar com essa mochila?
    O crioulo estendeu seu braço esquerdo sobre o encosto do banco e encarou o gajo pelo retrovisor.
    – Começas a falar como aquele outro tipo, como se eu tivesse serragem dentro da cabeça. Vens com esse papo, a falar como se fossemos parceiros. Mas debaixo de toda essa merda, o que queres mesmo é o meu rabo, não é?
    – É isso aí. – O magrela disse, dando uma risada. – tens de impor respeito ou tratar de encostar o rabo na parede. Se deixares botar a cabecinha, pode ter certeza que daqui a pouco vai estar tudo dentro.
     O crioulo agora estava com uma touca de lã enfiada até os olhos. O seco a observar as placas na rua.
     – Onde é que se entra para Valado?
     – Na 170. É a próxima. Vá pela Ygartua.
     Ele tirou uma das mãos do volante. Olhou o retrovisor e virou para a pista da direita.
     – Meu deus, olha o nome dessa rua. Parece nome de cantor de calipso, não parece?
    – E se não encontrarem a mochila? Vamos voltar de mãos a abanar, ou o que? – eu disse.
    – Presta atenção, este não é o tipo de negócio que pode acabar num tribunal, sabes como é, entrar com uma ação. Tens que calcular de cabeça o quanto te vai custar se pisares na bola.
    O relógio digital do painel marcava 12:48 PM quando avistamos o Hotel Estoril, ainda azul mas começando a desbotar.
    – Estás a ver aquele estacionamento lá embaixo? Atrás do hotel? É só virar à esquerda e ir em frente – eu disse.
     Ele depois abaixou um pouco mais o vidro da janela:
     – Tens certeza de que é por aqui? Não quero meter o ombro na porta errada e deixar o maricas escapar.
    Fomos margeando o canil, por um pátio ou campo de atletismo que se estendia à esquerda. Podíamos ver as gaiolas, a uns quinze ou vinte metros, num dos ângulos do campo.
    – Pára por aqui – eu disse – de frente para a saída.
    O caipira estacionou e mostrou a arma, uma merda de cano curto com a empunhadeira recoberta de borracha.
    – Tá bem, vamos lá meter a mão.
   Passei os olhos ao longo da varanda e vi Pelon com a camisa para fora da calça, a uns dez metros de distância. Achei que estava a vomitar, pelo modo como se debruçava. Parecia surpreso. O tipo de gajo que, se um dia pusesse os pés numa prisão, antes de cair a noite já seria mulher de alguém.
    – Vai um pouco mais pra trás. Aqui não dá pra abrir a porta. – o crioulo disse.
    Ele então começou a dar marcha à atrás e parou. Disse de dentro do carro, com Pelon em pé do lado de fora:
   – Precisas consertar o portão.
   Pelon se virou para olhar o portão, sem dizer nada.
   – Sabes fazer isto, não sabes?
   – Eu vou largar este trabalho. – Pelon disse, ainda a olhar para o portão.
   O magrela concordou com a cabeça.
   – É uma boa ideia.
   O canil parecia um parapeito comprido com uma cobertura chata por cima, a cerca de cinquenta metros da casa.
   – Que tal nos convidar pra entrar? – ele disse, já do lado de fora, a correr a mão pelo corrimão pregado à parede.
   Pelon acenou com a cabeça, tratando de encarar as coisas objetivamente e percebendo que era capaz de aceitar o problema sem se perturbar demais.
   – A primeira coisa que tens que contar a eles é algo que já sabem. Entendes? – eu disse, a olhar diretamente para Pelon.
   – Ok – ele respondeu a segurar a porta para entrarmos.

 

   Peor

despesadiaria às 13:02
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