Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015

...

     um prejuízo do tamanho da Mónica - (07)

 

       Pude ver o carro passar bem devagar, parando na ponta do estacionamento. Desembrulhei o canudo do plástico e enfiei metade dele dentro da lata de refrigerante. O motorista do carro continuou sentado lá dentro, como uma mosca perto do bolo, mas sem coragem de pousar.

     O lugar ficava na altura de Acuocho, numa marina da Intralitorânea. Lá fora, uma sirene tocava de meia em meia hora e a ponte era levantada, deixando passar os rebocadores.
     Eu tinha passado a noite no furgão de entregas. Mastiguei metade do pastel de carne com um gole de Seven Up sem tirar os olhos do relógio em forma de leme pendurado na parede. À direita, subida a escada, havia um terraço com toldo onde um gajo podia sentar, beber alguma coisa e ficar olhando os barcos passarem. Fora isso, era um bar como qualquer outro, com um monte de detalhes de plástico a imitar madeira.

     Estiquei mais a perna direita debaixo da mesa. Sentia que o cansaço tinha endurecido dentro de mim como um pedaço grande de merda que eu não conseguia mais cagar. Tinha conseguido atravessar metade do país, com todos os álibis na moita. A inteligência a fazer bip! bip! como uma buzina de carro para sairmos da frente. Saber a hora de sair da frente... bom, talvez seja mais do que uma questão do que eu posso fazer por mim. Mesmo assim, é preciso ter muito cabelo no saco para não se preocupar com o fato de que tudo pode cair em cima da gente sem ninguém berrar “madeira!”.
     Quando saí pela porta do Asteca, acompanhando o tráfego na direção da alfândega, aquele assobio abaritonado tocava de novo, fazendo o pessoal todo se mexer nas docas. Virei a cabeça para os dois lados e atravessei um pouco diagonalmente para evitar os crioulos que sempre ficavam por ali como que a desafiarte a fazê-los sair da frente.
     O gajo tinha apoiado a cabeça nos braços em cima do volante. Dei uma pancadinha seca no vidro e ele destrancou a porta do passageiro.
     Olhei para o banco traseiro. Sabia que embaixo da toalha tinha uma espingarda calibre 12, novinha, de cano azulado, com uma águia em pleno vôo gravada na madeira do cabo. Isso foi perto da entrada do canal. Podíamos ver a ponta de um dos navios, com o nome Amoringa mal dando para ler no casco enferrujado.
     O tipo ficou de frente para mim. Ele parecia agitado, como se tivesse um sistema nervoso todo do lado de fora. Passou várias vezes a ponta dos dedos naquele bigode estilo bandoleiro, depois enxugou uma das mãos nas calças e tirou de debaixo da coxa um papel dobrado com o número anotado a lápis. Disse que a coisa toda já estava a ser diferente da que eles tinham combinado, com todo a gente a querer levar o seu antes da hora.
     – Sabe quanto tá a valer um container em Porto Velho?
     – Diz pra mim – ele disse.
    – Setenta e cinco por cento mais.
    – Então melhor ficarmos longe de lá, não achas?
    – Na hora de comprar, pode ser. Mas depois.
    – Depois não é problema nosso.
   Coloquei o papel no bolso, e fiquei a olhar o painel do carro, bem no pedaço em que o adesivo da prefeitura comçava a descolar.
   – O que é que queres que eu diga pra ele? – perguntei.
   – Que diferença faz?
   – Imagino que pra ele ia fazer uma diferença.
  – Escuta, isto não é como se tu e o Bielo tivessem ficado bêbados e saíssem pra assaltar um posto de gasolina.
   Um barco a puxar barcaças vinha da ponte na nossa direção, sem fazer um único ruído; era uma embarcação curta e larga, lembrando um rebocador, só que muito mais alta.
   – Vais ter que arranjar outro jeito de levar vantagem, de conseguir mais do que os teus cinco por cento.
   – É. – eu disse, a destravar a porta.
   – Ei, – ele falou – não preciso dizer pra usares um telefone público.
   – Quais são as chances dele concordar?
   – As mesmas da porcalhona da tua mãe aparecer agora ali no capô a cuspir sidra pelos ouvidos.

 

   Peor

despesadiaria às 12:52
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