Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2015

 

Notas de uma festa de aniversário*

 

O brilho insolente da esclerótica não basta, por isso eu explico: quando tenho um livro na mão, toda a gente feita de carne me aborrece; aliás, se eu tenho um livro na mão é porque toda a gente feita de carne me aborrece, e o livro aberto surge como alternativa ao arremesso de cuspo. Uma boa alternativa, porquanto os elementos boca e língua prevalecem (ler em público é como deitar a língua de fora), embora apenas como backing vocals. Um dia serão estrelas, prometo(-lhes), mas por ora convém que componham a máscara do que é funcional, tornando-se eles próprios funcionais; o funcional (também referido pelo meu terapeuta como socialmente aceite) serve-me bem, leva-me a festas onde há cestas fartas em gressinos que só pecam por estar longe da poltrona azul onde me encontro — a ler.

O que eu queria era que me deixassem ler em paz. Ler vai além dos movimentos de sacada ou das migalhas de gressino entre páginas; a minha sobrancelha levanta-se para pedir que respeitem um dos principais responsáveis pela minha esperteza cretina, que é simultaneamente espada e escudo. Mas em vez de respeito, há uma velha não totalmente grisalha a espetar os cotovelos no topo da poltrona azul, de modo que a minha cabeça é forçada contra as páginas numa corcunda; a sombra do candeeiro de pé desce até ao meu bigode louro, como a máscara de um vilão, e a minha expressão fica ainda mais carrancuda.

— Tu tens sacos do pão? — Só percebo que esta pergunta me é dirigida quando a oiço repetida pela segunda vez; e vinda de quem mos oferece anualmente, só à terceira repetição identifico a expectativa despropositada com que a resposta é aguardada. Sim! Tenho tantos sacos do pão, todos iguais, todos inúteis. Sim; e de que me servem esses saquinhos de pano, com flores bordadas em ponto-tremelique, se ainda há dias levei a mão à base do pescoço e, ao sentir as curvas lentas das clavículas, as ouvi dizer que não gostavam de pão? Sou uma jovem em idade fértil. Faço zumba, abano-me com espinafres, sou intolerante ao glúten ante marcação; isto na minha mão é um gressino porque eu devoro as emoções, enquanto o coração escuta o paso doble do desespero, e o desespero é uma velha que não se cala. Ter sacos do pão não chega? Não. Aqueles cotovelos afundam-se ainda mais na almofada traseira da poltrona e temo ficar marreca para sempre. O pavor da deformação permanente ativa os mecanismos somáticos e o livro escorrega nas minhas mãos. — E aventais, tens aventais? — Sei bem que fechar o livro é admitir a derrota. — E lençóis? A tua outra avó ainda te faz lençóis? — Mas a derrota é inevitável.

 

A mesa da cozinha está repleta de insultos à modernidade; a primeira ofensa vem logo da fartura, tão evidente que incha as meninas dos olhos, desperta movimentos orelhudos e redobra a produção de saliva. A comida é a festa e a festa é a comida. Todos sabemos dos preparativos do meu primo para se trancar num armário alto e de lá sair feito homem. As puberdades, ou qualquer outro tipo de translação, não se comemoram pelo seu caráter excecional; crescer não é grande mérito: é uma inevitabilidade, uma decorrência da lei da causa-efeito, onde a causa é o sol e o efeito é a degradação da matéria. Estamos aqui reunidos pelo bodo. Os convidados rodeiam a mesa com referência, enfeitiçados pelos reflexos gordurosos dos enchidos e pelos vapores de açúcar que se desprendem das sobremesas com a violência de geiseres; quem, do corredor gelado, antevê a mesa, escuta imediatamente as sereias, e é com gosto que se afoga na abundância.

Como outros antes de mim — os pioneiros, os sacerdotes, os responsáveis pela cerimónia de encertamento à qual faltei por estar a ler —, sei que não tenho fome. O que me aproxima da mesa é o cumprimento do ritual. A abertura faz-se de faca e queijo na mão. Cantam-se os enchidos e os salgados. Um pastel de bacalhau entala-se nos dentes por acidente e sinto a formação de três coágulos na minha perna esquerda. Geba e manca, clamo o consolo do açúcar; eis as suas formas: arroz doce, tarte de natas, panna cotta, pudim de ovos, mousse de chocolate, bolo de mousse de chocolate (quando se deriva um bolo de chocolate, retira-se-lhe a farinha e fica xis igual a papa de cacau açucarado); e todas estas formas, num terço da porção normal, ocupam à vez uma taça de plástico branco. Assim se diz a oração do excesso. Assim se celebra.

E o que eu queria era que me deixassem celebrar em paz. Mas, aliado ao usufruto do basto banquete, vem a conversa de circunstância. Não só não quero cuspir as sobremesas como continuo a não poder fazê-lo; a palavra funcional escreve-se no caramelo do pudim — sim, logo no pudim! Eu gosto e não gosto muito de pudim. Há qualquer coisa na consistência do pudim-objeto que me confunde, um dilema estilo trinco-ou-não-trinco, faço-ou-não-faço. Para a maioria das pessoas, um pudim é um pudim, mas como na minha primeira infância o pudim-objeto e o pudim mandarim eram uma só entidade indissociável, quando vi pela primeira vez um pudim-objeto-não-mandarim não soube o que pensar dele. É certo que poderia encará-lo como uma gelatina (é esse o protocolo perante o pudim mandarim), mas aparência rugosa dos pudins caseiros aproxima-se mais de uma esponja, ou da superfície da lua, ou de uma face calejada pelo acne do que de uma gelatina. O pudim-objeto é um enigma;

quem és tu, pudim,

desfeito na minha boca,

o teu rasto doce enjoa-me,

perdoa-me, mas tenho que ir

comer um bocado de queijo.

Por outro lado, o pudim enquanto palavra encanta-me porque começa nos lábios juntos, bem franzidos e maldispostos, para acabar numa sílaba clara e alegre, como uma campainha. Pudim, pudim, pudim…

e, de repente, o tempo solidifica: vejo-me refletida nas quadriculas de vidro da porta aberta; cedendo às circunstâncias, oiço a minha voz vir de dentro e de fora; quando a última sílaba do último pudim acaba de vibrar, estou a explicar porque é que é possível ter a menopausa sem útero a mulheres que há pouco mais de dez anos me explicavam o que era um útero. Falo para um auditório composto por três cadeiras encostadas a uma parede; nelas se sentam as comensais, as tijelas das comensais e o arroz doce das tijelas das comensais, sincronizadas na regra e na ignorância como um coro de beatas. Observam com tento o movimento dos meus lábios e sabem que, no fim, não estarei disponível para lhes esclarecer as dúvidas.

 

— Escreves-me aqui a receita da tua mousse de chocolate? — E à pergunta inocente esta avó acrescenta um miga, a forma preguiçosa de amiga que me arrepia os caracóis do pescoço e reveste todo o pedido de falsidade. A minha letra exibe uns ângulos estranhos. Os ovos ficam cúbicos; há seis claras para bater em vez das cinco habituais, mas reparo no erro tarde demais para o emendar. Deixo-o partir naquela folha, e a folha é segurada pelas mãos, e as mãos descansam contra a barriga, e a barriga espeta-se em direção ao corredor, e o corredor vai dar à cozinha. — Obrigada — estala a marreca. — Anda, vamos cantar os parabéns.

Volto para a cozinha, onde ocupo um canto forrado a azulejo. Abre-se uma clareira na ponta norte da mesa e os convidados reúnem-se para observarem a descida do bolo à mesa; ali vem ele, num tabuleiro de plástico colorido: um pão-de-ló paralepipédico, recheado de e coberto com leite creme instantâneo. É o bolo de aniversário mais feio que já vi; simples, sem os berloques açucarados da moda — evita-se assim o confronto entre primos apreciadores de massapão, ambos egoístas por educação e protocolos geracionais comuns. No centro do bolo, traçando uma diagonal como quem vai para Santarém, a mestre de cerimónias, mãe do aniversariante e dona de todos os armários da casa, espeta duas velas da esquerda para a direita. O meu primo é agora mais velho do que eu era quando ele nasceu. Parecia uma ratazana cor-de-rosa embrulhada em lã azul; para não ser obrigada a pegar-lhe ao colo, eu chorava mais alto do que ele.

Ninguém sabe cantar com as luzes acesas. As luzes apagam-se; descubro que também não sei cantar com as luzes apagadas, mas os outros pigarreiam, preparando as goelas para a solene ária. Fico escondida nas saias da minha mãe enquanto as vozes se unem numa balada cacofónica; as mais antigas vibram exageradamente, como se batessem nos pilares de um altar e voltassem para trás, ziguezagueando entre os bancos; antecipo o momento em que se separarão, no verso personalizável da cantiga. Acontece sempre: depois das almas cantarem, há os que se dizem o nome do menino num sopro apressado e os que se demoram; os primeiros ficam de boca aberta, como peixinhos, à espera dos segundos, que tomam o gosto a cada sílaba. Acho que é na confusão deste momento que se envelhece.

O que eu queria mesmo era deixar estas pessoas em paz. Mas elas insistem em sorrir para mim, com a cara cheia de bolo; o meu primo oferece-me uma fatia que não quero comer; o meu tio procura-me com dois dedos de Jameson num copo largo. Espanta-me a capacidade que estas pessoas têm de gostar de mim. Temos pouco ou nada em comum além de um nariz pequeno e de uma noção adulterada do funcional.

A família é o verdadeiro lugar estranho, tão surpreendente e eufónico quanto o pudim.

 

*A palavra pudim aparece repetida dezanove vezes (agora vinte).

 

S. White

despesadiaria às 09:48
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