Terça-feira, 3 de Março de 2015

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     um prejuízo do tamanho da Mónica - (11)

 

     Desci do ônibus com a mochila no dia dezoito de Novembro, três dias depois que o carro do Calucho foi encontrado com ele no porta-malas. Sentei na ponta da Estação com aquela merda no colo e fiquei a pensar no que devia fazer enquanto, do outro lado, dois gajos enfiavam um monte de éguas nos vagões de gado da Companhia Interestadual.

    Uma hora e quarenta minutos mais tarde, telefonei do Bar Milano, na Presidente Roosevelt, para o meu cunhado. Disse que queria vê-lo. Meu cunhado falou: “Meu, aí tão longe?” Ele parecia estar de bode ou meio sonolento. Disse a ele que não era longe, levaria só uns quinze minutos. Ele falou que tinha coisas para fazer. Então olhei para o relógio acima da caixa registradora, entre os espelhos do bar, e disse:
     – Ei, Pelon, só mais uma vez. Estou no Milano e não quero que estejas aqui depois das onze horas. Entendes o que estou a dizer?
     – Merda – ele disse, e desligou.

 

 

    Fiquei sentado, a olhar as palmeiras no rótulo da garrafa. Pelon apareceu por volta das onze e meia. Vestia uma jaqueta preta a imitar couro e usava uma gravata vermelha fina no pescoço. O rosto dele era inocente como uma tigela cheia de cereal. O tipo de gajo com quem não precisas se preocupar. Era ajudante de cozinha. No trabalho, ralava montanhas de queijo e cortava o meu peso em cogumelos todas as noites. Ele ficou a se explicar, dizendo que o carro não queria pegar.
     – Ainda tens aquele saco-de-dormir no porta-malas? – eu disse.
     – Tenho.
     – E já esteves em Bela Aliança?
     – É, já. Mas é muito longe.
    – Bom, essa viagem não vai te custar um centavo, e ainda podes ganhar um monte de dinheiro antes dela terminar.
     Pelon esfregou a parte de trás do pescoço, como se estivesse apalpando para ver se precisava cortar o cabelo.
      – Eu não sei – ele disse.
     A mochila estava enrolada num cobertor debaixo da mesa. Apontei o queixo na direção da janela.
    – Estás a ver aquele gajo do outro lado da rua?
    – Qual?
    – O que está com a mão na cerca.
    – O que é que tem?
    – Nada. Só quero que te recordes que há gente para quem dez por cento dessa merda pode parecer um ano de salário.
     Pelon não disse nada. Ele tinha um jeito meio efeminado de segurar o cigarro, bem na frente do rosto, a pegar o filtro entre as pontas de dois dos dedos.
     – Posso perguntar por quanto pretendes me convencer? – ele disse.
    Eu ainda não decidira se podia confiar nele, nem se importava se confiava ou não. Recostei-me melhor na cadeira, a olhar para um teto que estava a descascar e precisava ser pintado. Depois mantive os olhos em Pelon, agora com a sensação de que estava a perder meu tempo.
     – Tudo bem. Esquece Bela Aliança. Preciso só deixar uma coisa na tua garagem. Dois dias no máximo.
    – Na minha garagem não vai dar – ele disse. Depois seus olhos adquiriram uma expressão de astúcia – Mas tem outro lugar.

 

     Peor

despesadiaria às 14:00
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