Quarta-feira, 14 de Maio de 2014

 

Calculávamos nós, todos tinham uma boa história, mas a melhor, e da qual nunca duvidámos, era a de que o Sr. Lapão assassinou a mulher, quando tinha coisa de vinte anos. Pelas nossas contas estaria ali há mais de quarenta. Um doce de pessoa, podíamos jurar. O mais velho chamava-se Elvino (eles tratavam-no por Administrador, nós não), já tinha passado os setenta e costumava sentar-se sozinho numa caixa de electricidade na esquina mais distante da rua. Vestia sempre o mesmo casaco velho, um blazer desportivo azul celeste, e na cabeça um fedora impecável como os que os miúdos agora deram em usar. Vítor, bastante mais novo, tinha mau ar e usava-o a seu favor a quem o deixasse. Mais de um metro e noventa, uns quarenta anos e uma barba completamente branca, aparada a tesoura. Andava devagar e silenciosamente, o que era desconcertante para nós, e pedia cigarros como quem ameaça. Quem lhe dissesse que sim era dele, mas um não seguro virava o jogo de tal forma que nos confrangia o pedido de desculpas consequente. Havia mais, procuravam passar à nossa frente na fila para os gelados na papelaria, bebiam coca-cola sem cafeína ao balcão, eram mais inconvenientes, mais lentos, pareciam mais inconformados mas menos hábeis do que os outros três. Os empregados dos estabelecimentos à volta tinham instruções claras: nem álcool, nem fiado. Tirando isso, eram calorosos quanto baste e, salvo o da papelaria, gostavam de toda a freguesia que fosse ali do bairro.

 

Bom, não chegava a ser um bairro, era uma rua fechada, só com duas saídas nos extremos.Uma recta de cerca de duzentos metros que não era ponto de passagem para ninguém, os carros eram raros, não havia praças de táxis nem paragens. Aliás, não passavam táxis ou autocarros, ninguém chegava por acidente, só querendo. Quando acabavam as telenovelas, a minha mãe tinha o hábito de convidar colegas do trabalho para jantar e verem juntas o último episódio, e quase ninguém dava com o sítio, mesmo as que já lá tinham estado. O comércio parecia resultado de um minucioso plano abandonado a meio. Uma papelaria de um velho nojento que tinha por nós profundo desprezo; o café onde, durante todo o dia, se iam encontrando os enfermeiros que pegavam ou largavam turnos, maioritariamente homens, enormes, densos, com excesso de boa disposição e, curiosamente para enfermeiros - achava eu - sempre aos pares como os polícias; uma mercearia de uma senhora que tinha sido anos antes projeccionista no Cinema Paris na Estrela; um barbeiro que não dizia uma palavra e se vestia (por baixo da bata, evidentemente) com distinção de cavalheiro; um sapateiro que, para nosso êxtase, se atirava ao chão, de costas, e rodopiava sobre si como uma barata moribunda sempre que entrava na oficina determinada vizinha; e uma casa de pasto onde, gabava-se o dono, o Matateu bebia em tempos um bagaço todos os fins de tarde, mas onde nunca jantou. Tínhamos praticamente uma autarcia.

 

Sabíamos bem onde terminava o território: do lado oriental a rua fundia-se com a calçada adjacente e deixava de ser nossa aí mesmo. Lembro-me de um cão vadio que costumava seguir-nos e que parava quando entrávamos na rua por este lado. Ficava sentado no cruzamento de olhar resignado como se uma vitrine o impedisse de passar. Do lado oposto, uma estreita ponte romana (não era nada, mas tinha arcos) ligava a nossa rua ao bairro de cima. Nenhum rio lhe passava, mas, dizia o meu pai, aquilo já tinha sido terra de ribeiras abundantes, tapada de caça real, e arredores tranquilos de Lisboa. Parecia-me orgulho de pouco valor; tudo o que sempre tinhamos conhecido eram carcaças de prédios que nunca devem ter sido bonitos. Eram (e ainda devem ser hoje) construções incaracterísticas que revelam nada de outro tempo. Há um charme digno e bonito nos bairros operários de filmes antigos que nunca vi por ali. Nessa ponte, terreno neutro, resolvíamos os nossos problemas com os de cima em jogos de balizas de um passo ou de outra forma pior.

 

No centro da nossa rua, enfrentavam-se dois edifícios com admirável equilíbrio: o meu liceu,a norte e, do outro lado da estrada, o Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental, ou, como era mais habitual chamar-se-lhe na voz popular local, o antigo sanatório.

 

Gouveia

despesadiaria às 08:30
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