Quinta-feira, 15 de Maio de 2014

 

crescer num subúrbio como o miratejo ensinou-me a ver sempre por onde ando, nunca andando por onde me possam ver. é uma aprendizagem demorada, que se apura ao longo dos anos, nascida de um instinto de sobrevivência que é marca de casta, imagino. no miratejo, no laranjeiro, na cova da piedade, em corroios, os mais caprinos tendem a estimar a arte de passar como o vento por entre as matilhas de olhares que predam junto às esquinas dos prédios, ávidos do ricochete ocular que acenda o rastilho da sequência de palavras mais explosiva que alguém pode escutar quando tem 14 anos e um medo sem fundo:

 

- 'tás a olhar, caralho?

pouco tempo depois, a minha fluência nesta linguagem dos olhares correspondia, de forma justa, à reputação que entretanto havia adquirido. aprendi depressa a não dar nas vistas, a tornar-me invisível, a moderar os meus apetites adolescentes em nome de um corpo que queria demasiado esquálido para o apetite dos predadores que povoavam os meus sonhos e o miratejo.

 

só eu não o percebi na altura, mas haveria um preço a pagar. se o tivesse feito, se tivesse compreendido, ter-me-ia furtado menos ao risco de regressar a casa com alguns hematomas  a mais e uns trocos a menos. mais indissipáveis são as fracturas hoje radiografadas nesta alma que trago a habitar-me o corpo e um apartamento em almada. a invisibilidade imiscuiu-se de tal forma no meu carácter que, deixando a pouco e pouco de ser meramente uma técnica de sobrevivência, passou a tomar conta da matéria de que me fiz homem. cedo deixei de ser apenas o tímido que conseguia passar despercebido, para passar a ser aquele de quem ninguém se apercebia. e aprendi a suportar a intolerabilidade desta solidão, que se apresentava juntamente com as borbulhas que me começaram a colonizar o rosto, como uma novidade. aos poucos descobre-se que a solidão não desaparece quando se limpa com um resto de papel higiénico a bola de pus disparada contra o espelho da casa-de-banho.

os anos passaram e nunca mais regressei ao miratejo, mas ainda hoje mantenho traços indelevelmente invisíveis na minha personalidade. continuo a ser bastante eficaz em situações que requerem alguma discrição, eximindo-me com elevada taxa de sucesso de encontros indesejados: pais de alunos que me querem dar uma palavra no final do dia à saída da escola; vendedores de time-sharing a barricar-me as ruas; os olhos treinados dos chacais que farejam o turista acabado de chegar à cidade. reconheço, portanto, que continuo a encontrar vantagens na matéria invisível de que sou feito. falta-me é uma solução que evite que a sua eficácia se estenda para além do meu controlo. como naqueles momentos em que nada pode ser mais contrário aos meus desejos do que passar despercebido – a beber sozinho, curvado sobre um tampo de mesa de café - aos olhos de uma mulher que passam indiferentes à água de beber que trago nos meus.

 

azeite

despesadiaria às 07:11
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