Segunda-feira, 19 de Maio de 2014

 

A cronista desculpa-se pela carne que é fraca.

 

Passei uma hora a cirandar pelo terminal A do aeroporto de Zurique. Quando me cansei, sentei-me num dos bancos estofados a pele bordeaux, com boa vista para os painéis azuis das partidas. Ia olhando para eles, em intervalos de tempo espaçados pelo aborrecimento. Obrigaram-me a rezar credos em criança: é assim que justifico a esperança de ver desaparecer as observações pintadas a vermelho que me fazem bufar de impaciência quando encontro o meu voo na lista. Betriebiiche Verspätung. O avião tinha problemas técnicos, dizia a voz omnipresente do aeroporto, no alemão-suíço que magoa os ouvidos. Alemão que traz más notícias. Alguém fintou a morte por mim e detectou uma falha, um defeito, um atraso de três horas num terminal frio para que as minhas tripas não acabassem espalhadas pelo Olimpo ou no chão de alguma terriola em caminho. Naquele momento, era difícil agradecer o zelo. O que me levava a Atenas era irrelevante para todos os deuses que lá habitam e por isso não largava a ideia de que se esqueceram de mim naquele corredor desolado. As horas pareciam lava viscosa que toldava a minha noção de ser, a espera eterna e a antecipação da viagem faziam da minha mala a pedra de Sísifo que ia arrastando até à zona do Duty Free.

E agora que estou regressada à insignificância do meu quarto português, é pouco mais o que consigo escrever sobre a semana que vivi. Cheguei a Atenas de noite para a descobrir guardada por cães vadios, de olhos tristes e baços à procura do carinho de uma taça de comida. São animais miseráveis, de pelo enriçado pela falta de cuidado. Prostram-se nas entradas dos templos, aqueles esqueletos de civilização esquecida. Mas os cães, os templos, as ruas esburacadas pela dificuldade dos tempos, tudo se mistura numa poça de memórias mal definidas. O que recordo da Primavera grega leva-me ao elevador do hotel, que sobe para lá das balaustradas do Parthénon. O elevador estava cheio de gente estrangeira que se conhecia pela primeira vez, mas foi no Jannis, o físico alemão, que o meu olhar se prendeu. Mais tarde, depois de andarmos entre os cães danados, de subirmos ao ponto mais alto da cidade, de escorregarmos nas pedras puídas da Acrópole, foi nele que a minha boca se perdeu. A recordação mais viva que tenho de Atenas é a daqueles olhos azuis, tão azuis!, a observarem-me enquanto eu procurava a minha roupa espalhada pelo quarto. Os traços germânicos sobre a luz da cabeceira a pedirem-me para ficar mais um pouco, o calor no meu ventre a lutar contra a urgência do tempo que corria para o aeroporto.

Sou uma cronista miserável, como miseráveis são todos os corações apaixonados. Amancebei-me sem querer, à sombra das laranjeiras gregas. Do regresso ao trânsito e aos aviões atrasados, podia falar sobre o movimento nas ruas. Homens e mulheres ladeavam a estrada com cestos de fruta e legumes frescos, em preparação para o mercado do dia seguinte. Gritavam palavras desconhecidas, enxotavam os cães com destemor. Mas não sei dizer mais nada, o bulido das gentes era uma mosca da fruta, pequena drosófila irrequieta, enquanto o meu corpo tremia com a violência de uma varejeira perdida nos cortinados. Procuro sair de mim, absorver o alheio para alimentar a minha arte, mas o toque do alemão ainda me arrepia a pele. Que raio de história me havia de acontecer. É melhor ficarmos por aqui.

 

S. White

despesadiaria às 15:42
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