Quarta-feira, 21 de Maio de 2014

 

Não percebi imediatamente que podia furar a convenção social das horas de almoço num escritório e que não só era possível evitar os meus colegas, como deixar de frequentar os snack-bares especializados em refeições económicas (ou qualquer outro restaurante). Não foi imediato nem fácil; foi necessário andar uns meses quase sem dinheiro e - de trocos contados - passar a almoçar duas sandes num banco de jardim. Certo, soa a pequeno melodrama, mas, à parte o facto de um almoço feito de sandes, peça de fruta e banquinho ter um potencial deprimente, fui-me convencendo sem dificuldade que o Sol era agradável, que toda a gente faz isto lá fora e que assim sozinho a literatura ganhava mais uma hora na minha vida. Foi tudo verdade e, mesmo após a necessidade, afeiçoei-me a uma rotina de sandes, livro e dois cigarros. De todos os sítios onde já desisti do Ulisses, este foi seguramente o mais agradável.


Nem só eu gostava de celebrar o almoço desta forma. Ao lado do banco que eu ocupava todos os dias, com escrupulosa pontualidade, às cinco para a uma da tarde, havia um outro, a menos de um metro, que ia sendo usado por gente que nem sempre me deixava ler, mas que não tornava por isso a hora de almoço mais mal empregue. De entre estes meus novos amigos, contavam-se:


Uma cabeleireira, que também passava o almoço sozinha. Sem hábitos de leitura, ou telefone com internet, aproveitava a hora para ligar a amigas e desabafar sobre a sua superiora. De todas as vezes ouvi a mesma história, pelo que suponho que ligava sempre a pessoas diferentes, e à medida que a narrativa do ódio crescia (a estrutura passava sempre por uma exposição das causas de indignação seguida de fantasias de homicídio ou agressão qualificada) ia falando mais baixo enquanto olhava nervosamente em volta. O cabeleireiro era pertinho;


duas miúdas de cerca de vinte e cinco anos, vestidas com o que habitualmente se chama, com propriedade, roupa justinha, e sapatos de salto muito alto e coloridos (os próprios saltos eram largos poliedros coloridos). Dado que uma das duas era extraordinariamente mais atraente do que a outra, a hora era passada invariavelmente a falar da vida sentimental da primeira, sempre difícil, intercalada a espaços por conselhos, raspanetes e opiniões da segunda, sublinhadas por expressões como «duh» e «hello??» muito eficientes na demonstração da auto-evidência da sua verdade. Tanta sabedoria e experiência desta eram um mistério para mim mas um dado assegurado para aquela;


durante cerca de quinze minutos, sempre à mesma hora, uma senhora passeava o cão sozinha e rondava o meu banco em elipses não muito alargadas. Não era a única pessoa que o fazia, e também não era a única que falava com o cão. Mas não usava a habitual baby talk de alguns dedicados donos de animais de estimação. Eram conversas completas, com pausas para resposta do interlocutor. Fiquei a saber, por exemplo, que a espera no Santa Maria é desesperante, que em determinado dia a consulta fora adiada e que pensaram marcar para o seguinte, mas a doutora ia fazer greve e portanto só depois do fim-de-semana. Após consultar o cão decidiu aproveitar esses dias sem consultas e ir ao dentista. Uma cereja: a senhora tinha uma gaguez tão acentuada que eu acreditava sentir arritmias de cada vez que uma palavra ficava presa a meio;


duas outras raparigas, a estudar inglês. Em voz alta, claro. Diariamente levavam uns apontamentos que liam uma para a outra, pontuando a espaços o estudo com risinhos descontrolados. Gravíssimos - gravíssimos - problemas gramaticais mas, surpreendentemente, uma inatacável pronúncia. Mais curioso ainda, estas duas pessoas falavam numa língua que a minha ignorância só permite situar numa ex-república soviética e, pontualmente, em português. Este com mau sotaque, ao contrário do inglês. É muito desconcertante ouvir frases extremamente erradas com pronúncia de Oxbridge; e

 

dois senhores reformados, os meus preferidos, pessoas de sessenta e alguns ou muitos anos, que conversavam sem parar, em russo (neste caso faço questão de acreditar que era em russo). Nunca quis tanto participar numa conversa. Ora se indignavam, ora expunham, ora se riam com vontade, sempre sem que qualquer um dos dois ganhasse ascendente sobre o outro, algo que aliás nunca pareciam pretender. Tanto quanto sabia podiam estar a trocar coscuvilhices como as da cabeleireira, mas é impossível ouvir dois velhos a falar em russo e imaginar que a conversa não envolva Pushkin, gambitos obscuros, Napoleão, ou, pontualmente, a carreira de um qualquer Lokomotiv esta época. Há piores preconceitos.

 

Gouveia

despesadiaria às 09:32
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014