Sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

 

escriba

 

Alinhou as personagens cuidadosamente no grande quadro de cortiça. Demasiadas séries policiais americanas convenceram-no da pertinência da tarefa. Deu-se até ao trabalho de esticar pequenos fios entre as figuras desenhadas à mão e manuscritadas com o esmero possível em post-its e outras folhas que não merecem nome estrangeiro. Construiu complicadas teias de relações que, inevitavelmente, deixou de compreender ao segundo cruzamento das linhas. Apesar do Agosto, acendeu a lareira. Meia hora de fumo e palavrões até vir a chama inspiradora.

Mas enfim, dois dias depois estava tudo pronto. Releu as fichas das personagens com a ponta dos dedos, como se a coisa estivesse escrita em braile.

 

- O cabrão tinha uma letra horrível, mas também não exageremos!

- Posso continuar?

- Sim... desculpa

 

Epistínia – Prostituta de alta sociedade, 28 anos, morena, olhos verdes. Bonita, manipuladora, calculista. Inteligência muito acima da média. Profissional, cuidadosa, precavida. Gosta de sopa de nabos

Filintino Elisteu – Escriturário, boémio, poeta, gargalhador estridente. 40 anos, moreno, olhos castanhos, calça 45. Divorciado duas vezes, sem filhos. Ontem comeu garoupa

Abestino Meira – Chefe da polícia, gordo, gel no cabelo, vaidoso, casado com uma imigrante chinesa que salvou de ser devorada pelo SEF. Tem uma filha de olhos rasgados e desconfia

Farélia Parcífoca – Empregada doméstica, limpa as casas de Epistínia, Filintino e Abestino. Tem 48 anos e ainda não sabe muito sobre o que anda a aqui a fazer. Tem marido a menos e filhos a mais

Estribiteu – Perdeu a declaração de IRS e ficou sem resposta ao habitual “o que faz você?”. Joga matraquilhos na associação recreativa e diz que a mulher fugiu, vai para dois anos. Comprou o carro na Internet contra o conselho dos amigos, poucos e parvos

Abastéria Falacundo - Ainda não tem idade, corpo e instrução definida, mas há-de entrar na história para desanuviar o ambiente com a sua 'joie de vivre' e a desconcertante capacidade de não levar nada a sério. Se não for esta gaja a fazer rir o leitor, temo que estou fodido.

 

Parou para tomar fôlego. Percebeu que entrava em manobras dilatórias. Já tinham passado mais de cinco dias e continuava com a primeira página irrepreensivelmente em branco. A casa fora arrendada por uma semana, porque se fosse alugada vinha logo um espertinho do caralho dizer que os bens imóveis não se alugam. Fez a mochila e desceu a encosta até à cidade. Veio o caminho todo a imaginar qual o pior cenário possível caso o comboio falhasse o corte perfeito que imaginou no seu pescoço.

 

DoVale

despesadiaria às 09:23
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