Segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

 

Matador

 

Vinha de comboio pelas serras abaixo sem pensar em nada de especial. Tinha a missão bem estudada, dar um tiro nesse tal de Fuçulim, almoçar n’A Regaleira – (Rua do Bonjardim 87 - Código Postal: 4000 124 PORTO - Especialidades: Peixe: Açorda de Marisco; Arroz de Polvo; Grão de Bico à Regaleira. Carne: Cozido à Portuguesa; Tripas à Moda do Porto. Mas o que dá fama à casa é a convicção de que foi ali que nasceu a francesinha. Pois, consta que apareceu por ali um ex-emigrante da França que sugeriu ao dono uma espécie de tosta…)

- Mas a história é sobre a Regaleiro ou sobre o Timóteo?

É isto senhores, ser narrador hoje é isto. Aturar bêbedos de primeira fila, ouvir insultos como se estivéssemos a apitar um jogo da bola, sermos apontados na rua como se tivéssemos confessado ser amigos do Armando Vara.

Timóteo, está bem, o Timóteo. Há muita bibliografia e cinematografia empolada sobre quem mata por dinheiro. O Timóteo faz vinho, cheira mal, tem mulher e filhos, vive numa quinta do Douro mas não comecem já a entusiasmar-se porque não é uma coisa de gabarito, dessas que dão artigos sobre o novo enólogo do momento. É uma nesga de terra que lhe calhou em sorte quando o supremo azar bateu à porta do pai, da mãe e do irmão mais velho, ali na subida do Marão. A coisa meteu um camião revoltado com as linhas da estrada, fez muito barulho, enfim, é disto que se fazem tragédias

- Mas a história é sobre o aci…

Porra, ao menos ainda sobra ao narrador a possibilidade de calar quem deve ser calado. Por enquanto.

Pois o Timóteo há-de sair em São Bento, para apanhar o autocarro dos STCP para a Cedofeita. A filha Catrilína, 15 anos, esperta que nem um alho - só não vos explico porque é que o alho tem a argúcia de figurar em figura de estilo porque se me esgotaram os créditos para apartes, a ver se carrego isso no multibanco – disse-lhe na véspera que autocarro poderia apanhar para a Rua Álvares Cabral, parece que o 300 fica lá perto.

Mas, pelas oito e meia, Timóteo apercebe-se. Deu merda. Greve, diz  a folha A4 na paragem do autocarro.

-Ora foda-se.

Mete-se num táxi, mas não é a mesma coisa. O trânsito está terrível – é o Porto senhores, é o Porto – e vai chegar atrasado. No autocarro ninguém lhe perguntaria porque tem um saco tão comprido, a sugerir a caçadeira que afinal é uma velha arma sniper que surripiou ao Exército português em 1972, Guiné, Guileje. Agora vai ser visto pelo taxista, este vai meter conversa, vai ter que inventar uma desculpa parva, o cabrão do fogareiro há-de comentar com os colegas que viu um gajo suspeito, os colegas hão-de dizer, “vais ali à PJ e contas tudo”, e pronto, assim se fode uma carreira de 25 anos e 18 homicídios sem mácula, dinheiro depositado na Suíça, o sobrinho taxista sabe estar calado, não é como o outro.

E assim, em vez de seguir para a Cedofeita, o carro segue para Campanhã. Tem duas horas e 45 minutos para planear como é que vai explicar à família que têm de partir todos amanhã para a Suíça.

 

DoVale

despesadiaria às 11:36
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