Um homem só se apercebe de que nunca esteve perdido até ao momento em que a cidade o encontra. Penso nisto enquanto, a meu lado, o lânguido rosto da noite soçobra na mesma cama onde lençóis e sonhos convivem desengomados. Talvez que o palpitar da estrela que arde sobre a minha testa mais não seja do que morse na língua estranha de um coração que, como o meu, espera. Pudesse eu fazê-lo, partiria nesse eléctrico que agora desliza, sobre invisíveis carris, entre a Basílica da Estrela e uma estrela de Andrómeda. Em noites como esta não é difícil seguir o seu trajecto pela abóboda celeste sobre os telhados de Lisboa. Perco-me, como de costume, nesse trilho e também na música das palavras, como se nessa perdição deliberada fosse encontrado, por acaso, pela poesia.
A cruzar os ares, o teu sorriso, o teu sorriso a invadir-me o quarto, a apossar-se de mim, a quebrar-me as forças, a entranhar‑se‑me nas unhas. O teu sorriso de louca e de criança entrando em mim sem pedir licença, como alígera besta célere. Ganhei horror a esse sorriso que com um dedo (e talvez dois!) em vertigem na fresta me descose a ferida aberta, uma chaga, no lado esquerdo do abdómen. Não sei bem se isto me lembra Cristo; se Prometeu; ou se não lembra ao Diabo. Sei que é o meu caminho da paixão e será paixão até ao fim.
Repara que continuo a pensar nisto, a minha cabeça encostada às estrelas, um cigarro guiando os dedos no seu percurso entre o nada e a orla marítima dos meus lábios. O tempo de escutar o pulsar descompassado da minha respiração, num sinal de que em mim arde uma vontade infantil de me masturbar e um desejo reprimido de pôr uma bala nos cornos.
E tu agora aqui, sorvendo da cana o suco, enquanto te fotografo pornograficamente, tu: toda inteira e falaciosa; eu: perdido de amores entre as estrelas; tu: em vaivém entre umbigo e glande; eu: errando por Cassiopeia; tu: deglutindo a via láctea; eu: big bang de um novo universo.
Encostas-te a mim, prostrada, mínima, domada. Pões o dedo na ferida, dezorganizas-me as entranhas, perguntas-me as horas e são quatro da tarde do dia em que começaste a maldizer os relógios, e em que eu – lambendo tudo em ti: as feridas as chamas o umbigo tatuado no flanco de um sonho que me acorda enquanto tu dormes – deixei no quarto um rastilho de pólvora para uma melodia de fuga.
azeite