A sensação que às vezes tenho é que desfrutas tanto dessa tua lengalenga que se mudares de vida é abdicares dela o que mais te vai custar. Quando começas a falar do agonizar irritante das gaivotas pela manhã, da luz porosa e multicolor que envolve o jardim após o corte da relva, do gingar trôpego e flutuante do corpo no fim de uma tarde de cerveja e fadiga, e em como precisas mesmo de te libertar do desprezo que carregas no peito com a bonomia do agricultor que traz na algibeira tesouras de podar, fico mesmo com a sensação de que nem te esforçaste por ouvir o que eu disse: pára de usar a beleza como um analgésico, por favor! Nem é uma necessidade, estás viciado, é só isso! Vamo-nos divertir, que seca, jogar badminton, dançar, vamos, vou pagar, não aguento mais esta melopeia soporífera, que fim de tarde enfadonho, meu Deus, não é mais estimulante falar contigo, vá lá Tomás, vá lá, vamos sair daqui.
pmramires