vai ver-te ao espelho logo de manhã
e passa depressa a lâmina pela cara
que não vais querer que te olhem assim no trabalho
a camisa que te ofereceram no natal passado
cai-te bem sobre o tronco magro
mas o nó da gravata lembra-te tem de ficar bem apertado
não percas este metro
e sente o cotovelo que te magoa as costas
a mão que não sabes de onde a afagar-te a nádega
vá deixa de ser desconfiado
ninguém te vai roubar a carteira
quando muito atrás de ti há uma septuagenária
com pensamentos de solteira
mantém a compostura e esse sorriso bem educado
tu és poeta para se levar a sério
e eis-te aqui épico entre o campo grande e o chiado
não importa se lá fora
a cidade é indiferente ao destino que tens traçado
o que importa é garantir
que a gravata não fique um pouco de lado
- azeite