idílios e pequenos delitos, Azul, XXXIII
No Liceu Nacional Sá de Miranda faltava às aulas para jogar bilhar ou para jogar GTA Vice City na casa de um amigo; nessa casita em São Vicente imitávamos “Big Pussy” Bonpiensero, matávamos peões virtuais e apreciávamos as alvinitentes alegrias da recém-descoberta pornografia amadora. Nos cafés modorrentos das vielas de São Vicente aprendi muita coisa, porque não aprendi a jogar bilhar; ainda me lembro de perguntar a um velhote por que é que um gajo na Eurosport estava a jogar com dois tacos – o velho nem olhou para mim, «deve jogar p’ra caralho esse teu amigo, pá». Era um taco auxiliar, uma rabeca. Naquela idade ainda acreditava que podia fazer tudo, pelo que não conseguir meter uma bola num buraco foi uma lição importante. Mais ou menos por essa altura, roubei da biblioteca do liceu O Processo de Kafka, que compreende vias ardentes que a escola de Dumas não ensina e que me iniciou em frustrações mais duradouras do que as do bilhar.
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