cuspido para a plataforma de metro do cais do sodré, avanço, contínuo, pisando o traço amarelo que separa esta vida da outra. seja qual for o caminho, estou certo que irá dar ao inferno, que são os outros, garantem-me. os outros que são agora este exército de calcanhares, de nádegas, de costas e nucas em movimento. metáforas, diria nietzsche, como se fosse verdade.
anónimo e lento, sigo na marcha fúnebre, com passo certo, quando, a meio caminho do primeiro lance de escadas, me perco no rosto que avança em contramão. abre brechas na formatura, revela o que as muitas nucas escondiam, e funda o espanto num lugar subterrâneo de lisboa.
como se ainda me tocasses, medusa, pergunto-me, petrificado, se um dia serei capaz do que acabas de fazer: voltar a olhar para mim.
- azeite