temos é que viver a vida com calma, dizem eles, os médicos de bancada, psicólogos de pacotilha. viver com calma e comer bem. morrer saudável, parece ser o mantra. comer merdas verdes e roxas, pouca merda de cada vez, muitas vezes merda ao dia. a nova gente foi gente que lhes disse que os alimentos vermelhos têm antioxidantes, e dantes é que era bom. têm a cabeça oxidada, reduzida a escombros. muito cuidado na alimentação, mas quer a ironia que engulam qualquer coisa que a tv lhes dê para papar. cuidado com a diabetes, cuidado com o colesterol, cuidado com a linha. páre, escute e olhe, antes de comer. cozer em água e com pouco sal. banha só da cobra, que a de porco engorda. fritos, só em sonhos. e as rotinas, ai rotinazinhas é que é bom. deitar cedo e acordar ainda mais cedo. deus nos livre de faltar ao jogging do sétimo dia. café só depois do trânsito, e com adoçante. refeiçãozinha ligeira a fazer as vezes do almoço. são uns condes de contar calorias, mesmo das saladas frias. essa barriguinha sempre lisa, ora meio vazia ora meio cheia de fome. cuidado com o bikini. yoga das seis e meia às sete, e depois do jantar a caminhada. rumo a nenhures e sempre de regresso à mesma porta. às portas da vida. amanhã há mais, depois da novela. meia dúzia de páginas de um qualquer novel escritor do tope dez antes do sono agendado. os cremes de beleza alheia, a almofada ergonómica, colchão de espuma ajustável à coluna sempre em forma. malta às direitas. e eu aqui todo torto, a fazer troça. pode ser que me foda.
um tal de joão gaspar