A Ram Sam Sam
Durante muito tempo foi apenas conhecida como Dona Ju; e, na verdade, só passados vários anos após ter terminado a quarta classe é que tomei conhecimento do seu verdadeiro nome: Juvelina. Agora que penso nisso, Juvelina até é um bom nome para professora primária. Ermelinda (a velha professora da outra turma, de onde saíram todos burros, excepto um ou dois por mérito próprio) também não é mau, mas ainda assim prefiro Juvelina. Há qualquer coisa de autoritário, de formal, de justo, que ressoa e me agrada no nome. Naturalmente que com o diminutivo Ju, como era tratada naquele tempo, nenhum daqueles indícios sobrevivia.
Havia uma altura do ano em que a Dona Ju obrigava-nos a dançar e a cantar o A Ram Sam Sam, logo pela manhã, e isso uma ou duas vezes por semana. Ainda hoje vivo horrorizado com essa experiência, e acredito piamente que a minha completa inaptidão para a música e para a dança provém daí. Também é verdade que não ajudava para amenizar a situação o facto de calhar quase sempre com a Anabela (a dança era realizada aos pares). Uns bons anos mais velha do que a maioria dos alunos, Anabela não primava nem pela higiene nem pela sociabilidade. Além de cheirar mal (e a cada passo aparecer com piolhos), não eram raras as vezes em que nos batia com uma cana que trazia de casa. Curiosamente, a sua natureza algo canastrã conferia-lhe uma falta de destreza para o A Ram Sam Sam inteiramente coincidente com a minha. Segundo me constou, está hoje “bem na vida”: emigrada na Suíça, com um rancho de filhos, vem no Verão à terra por altura da festa de São Sebastião.
Um gajo que fazia muito bem o A Ram Sam Sam era o Avelino. Nunca mais soube nada dele, até que há tempos ouvi que tinha morrido de mota mais uma moça, mas não cheguei a confirmar a veracidade desta informação.
EVN