foram vultos do cinema da envergadura* de uma gina lynn, de uma carmen luvana ou de uma veronica zemanova (isto só para fazer justiça a alguns nomes, sem querer correr o risco de maçar o leitor), que contribuiram de forma decisiva para que, hoje em dia, o mundo encare a manobra de heimlich, na sua variante sem calças, como uma das actividades mais gratificantes de que há memória. era nisto que eu estava a pensar, quando me encontrava no pingo doce para comprar um quilo de maçãs-reinetas, visto que me comprometera a fazer um puré das ditas para o jantar. não sei se pessoas como o meu caro leitor, que talvez não esteja habituado a comprar maçãs-reinetas, fazem a mínima ideia do que significa meter-se na fila das pessoas que vão comprar maçãs-reinetas. é que nunca é demais relembrar que a maçã-reineta é um daqueles frutos perante os quais uma pessoa de bem não se pode dar ao luxo de querer ser como a suíça. quem não está a favor da maçã-reineta, está-se a pôr a jeito das hordas de adoradores desse fruto malquisto. a maçã-reineta é um fruto tão incompreensivelmente feio que tenho a certeza que, se a livros do brasil fizesse um fruto, publicava uma maçã-reineta. e assim como há leitores para os livros da livros do brasil, também há comedores de maçã-reineta. conheço até histórias de gente que compra maçãs-reinetas e as guarda em esconderijos, longe da cobiça dos familiares, atrás de alguns volumes da colecção dois mundos.
regressemos, porém, ao pingo doce, àquele exacto momento em que eu, a postos, já com o saquinho de plástico na mão, pronto para ensacar uma meia-dúzia de maçãs-reinetas, me vi bloqueado por uma dupla de centrais experientíssima (à esquerda, uma velhinha de casaco de malha e, à direita, um quarentão de bigode e maus modos), que se aperceberam da minha falta de traquejo na alta-roda do ensacamento de maçãs-reinetas e decidiram fazer o que o luisinho e o venâncio fizeram ao klinsmann em alvalade, circa 1991. houve agarrões na camisola, cotoveladas e uma entrada assassina a pés juntos**. a tudo, o árbitro fez vista grossa. e porquê? a minha teoria, caro leitor, é que só pode ter a ver com fruta.
quando, finalmente, consegui abeirar-me da caixa das maçãs-reinetas, já só restava uma. era uma maçã-reineta particularmente tosca, quase capaz de inspirar a minha compaixão. mas eu estava demasiado dorido e humilhado para me dedicar à prática do bem, pelo que encolhi os ombros e acabei por também eu voltar costas àquele fruto, votando-o para sempre a uma hedionda solidão. afinal de contas, paciente leitor, eu nem sequer gosto de puré de maçã.
*errata: onde se lê “foram vultos do cinema da envergadura de…” deve ler-se 'foram vultos do cinema da verga dura, tais como...'.
** atenção: o luisinho e o venâncio não fizeram nada disto. mas confirmo o dado histórico que diz que o klinsmann esteve tão longe marcar um golo nesse jogo como eu, que estava sentado atrás de uma das balizas, no topo sul, do velhinho alvalade.
- azeite