idílios e pequenos delitos, Branco, III
Quando tinha três anos caí num poço de água. A protecção nominal do poço consistia em duas chapas de zinco sobrepostas com tijolos de cimento pespegados nas extremidades; para o génio terra-a-terra da aldeia, duas chapas de zinco são mais do que suficientes para proteger quem merece viver. Dormir é de noite, dizem. Não correu mal: caí na plataforma do motor que puxa a água e fui salvo pela minha avó ou tia ou ambas, as opiniões dividem-se. Este episódio vago, de que recordo só o medo e a escuridão, foi-me contado várias vezes com algumas variantes artísticas. Mais tarde, li O Díscolo de Menandro em que o misantropo também cai num poço. Cnêmon, já salvo, lamentou a sua sorte. Tales de Mileto caiu também, segundo Platão. Estas histórias são todas semelhantes – cair não é coisa que se possa fazer com muita originalidade –, mas é sempre interessante ver as variantes artísticas.
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